Crítica | Outras metragens

Você Tem Olhos Tristes

(Você Tem Olhos Tristes, BRA, 2020)

  • Gênero: Ficção
  • Direção: Diogo Leite
  • Roteiro: Diogo Leite
  • Elenco: Daniel Veiga, Gilda Nomacce, Jean Claude Bernardet, Giovanni Gallo, Larissa Ballarotti, Carol Oliveira
  • Duração: 18 minutos
  • Nota:

Em 1945, Karl Popper escreveu uma nota de rodapé um livro seu. Conhecido como Paradoxo da Tolerância o texto afirma que a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Quando o mundo, e especialmente o Brasil, vive uma onda de retrocessos com ecos claros de fascismo, é natural que as palavras do filósofo ganhem força e amplitude, ainda que a interpretação não seja a mais precisa e contrarie o cerne do pensamento no livro “A sociedade aberta e seus inimigos’, onde se encontra. Não assusta que, em tempos de informações por manchetes e grupos de WhatsApp, a nota seja destacada do todo e livremente assimilada. Fato é que a anotação de fim de página ganhou corpo, desprendeu-se de seu autor e da obra e hoje tem seu próprio significado. Um significado que veio a minha mente assim que eu comecei a pensar sobre o curta Você Tem Olhos Tristes, de Diogo Leite.

O filme acompanha um jovem entregador de aplicativo em seu cotidiano, enfrentado preconceitos e o descaso daqueles que o enxergam como um serviçal que não precisa de qualquer consideração – traduzindo, um retrato da vida de milhares que estão por aí com o caixote térmico do ifood, uber eats ou qualquer coisa que o valha nas costas – bem aos moldes de uma sociedade escravagista que insiste em não evoluir. Entre os clientes de Luan estão aquela que não se importa com o roubo da bicicleta e aquele, vivido por Jean-Claude Bernardet, que chega a ameaçá-lo fisicamente e causa sua suspensão.

Daniel Veiga em Você Tem Olhos Tristes

Vivido pelo ator trans Daniel Veiga, os preconceitos que se sucedem no cotidiano profissional de Luan nada têm a ver com sua identidade de gênero e estão diretamente relacionado à função e a esse passado de abusos e ao presente de uma juventude sem opções e oportunidades, iludida por mantras capitalistas como “seja o seu próprio patrão”. Tematicamente, é como se Você Tem Olhos Tristes fosse uma mescla dos retratos sociais de Ken Loach com o recorrente cinema sobre a elite culpada produzido no Brasil ultimamente. Os elementos se complementam bem, uma vez que postura, posicionamentos e manutenções de ideias dessas pessoas que se consideram superiores podem ser constatadas para onde quer que se olho.

Tecnicamente, o filme é bastante simples. Sem grandes inovações, busca no naturalismo encontrar sua força. Ainda falta a Leite a dosagem no tom dos atores, mas, entre as irregularidades do elenco de apoio, Veiga se destaca, com uma consciência maior de cena e mais segurança no papel, principalmente na segunda parte do filme, onde o roteiro lhe dá mais instrumental. Ajuda também o fato de estar contracenando com uma Gilda Nomacce inspiradíssima como a tia da namorada de Joel. É nessa passagem que o curta se encontra, justamente quando mergulha de cabeça na classe média tacanha, ressentida por políticas que aproximaram as classes, personalizada em uma única pessoa. “É praticamente da família”, “senta na mesa com a gente”, “beleza exótica”, a sucessão de frases disparadas pela personagem é muito mais chocante porque nenhuma delas está sendo ouvida pela primeira vez. Ao contrário, fazem parte de discursos atuais e agora legitimadas por um governo excludente.

Você Tem Olhos Tristes tem vários deslizes, um roteiro mal distribuído, que fortalece uma interação em detrimento de outras, assim como o aprofundamento das personagens nela envolvidas, e nem sempre consegue se fazer valer. Porém, traz uma discussão pertinente e interessante ao falar de uma atualidade que de moderna não tem absolutamente nada e onde a opressão se expõe sem pudores, seja em maus-tratos explícitos ou em discursos disfarçados, que reafirmam estereótipos e a discriminação. E a intolerância com a própria intolerância não precisa chegar ao ponto de ser física, como no extremo descrito por Poppe, mas ninguém precisa aceitar a coação, agressão, fanatismo e discriminação. Ainda que irregular, o curta de Diogo Leite transcende a tela, e isso é bastante coisa.

Um grande momento
Eu não fumo.

[48º Festival de Gramado]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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