Crítica | Cinema

Doutor Gama

O estigma de um crime

(Doutor Gama, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Jeferson De
  • Roteiro: Luiz Antonio
  • Elenco: César Mello, Pedro Guilherme, Angelo Fernandes, Clara Choveaux, Erom Cordeiro, Isabél Zuaa, Mariana Nunes, Zezé Motta, Johnny Massaro, Régius Brandão, Dani Ornellas, Romeu Evaristo, Sidney Santiago, Felipe Kannenberg, Higor Campagnaro, Nelson Baskeville, Alan Rocha, Noemia Oliveira, Agyei Augusto, Paula Picarelli, Fernanda Ross, João Carlos Andreazza, Teka Romualdo, Samira Carvalho Bento, Kauã Orsi, João Marcelo Iglesias
  • Duração: 80 minutos

Luiz Gama foi um dos maiores advogados do Brasil, sem nenhuma dúvida. Autodidata, tornou-se profundo conhecedor das leis e jurisprudência do País e, dentre as muitas causas em favor dos pretos escravizados por ele inocentados e libertados, várias seriam ótimas premissas para falar sobre o abolicionista no cinema — fica a dica da incrível Questão Netto –, e Jefferson De escolheu o famoso caso do escravo José, que matou seu dono depois de anos de maus-tratos e estrupos de sua esposa.

O longa Doutor Gama refaz toda a história do advogado. Sem muitas delongas, vemos sua infância, com a mãe liberta e ativista que lutava pelo fim da escravidão e o pai mau-caráter, que o vendeu ainda criança e sua amizade com aquele que o ensinaria a ler e escrever. Apesar de ser um filme que tenta dar conta de muitos acontecimentos em um curto espaço de tempo, e o faz a contento, há um problema com o ritmo, que se mostra irregular.

Em nós, até a cor é um defeito, um vício imperdoável de origem, o estigma de um crime

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Luiz Gama
Doutor Gama
© Pedro Iglesias Amaral

Embora algumas passagens tenham uma agilidade natural por seu contexto, e De se aproveite bem disso, outras, menos interessantes, acabam se deixando levar por palavras excessivas ou pausas deslocadas. Nas duas primeiras partes de Doutor Gama, é possível perceber este desacerto incômodo de maneira muito evidente. Um roteiro muito detalhista e diálogos marcados, alguns ingênuos além da conta, complicam a vida do elenco, que reúne nomes como Romeu Evaristo, Zezé Motta, Mariana Nunes, Higor Campagnaro, César Mello, Erom Cordeiro, Noemia Oliveira, Clara Choveaux e muitos outros.

Porém, se o roteiro ali está em descompasso, a fotografia de Cristiano Conceição, que já trabalhou com De em M8 e Correndo Atrás, é cheia de acertos em seu uso de luz natural, assim como a direção de arte de Thales Junqueira, de Bacurau e Divino Amor. E há ainda algumas elipses temporais que funcionam. Mas o mais curioso é que o filme se transforma. A partir do momento em que a casa de Gama é invadida e o filme encontra o seu plot principal, ele ganha uma outra força. O titubear do advogado, o pedido de Santos, a participação de Claudina na decisão, a chegada de Pedro na cidade parecem encontrar um elenco mais confortável com o texto e preparam o espectador para outra transformação.

Doutor Gama
Divulgação / Globo Filmes

Doutor Gama torna-se um drama de tribunal que funciona bem. Com investigações paralelas pouco invasivas, consegue encontrar a essência de seus protagonista de maneira mais efetiva do que todo o tempo que gastou tentando retratá-lo até então. O fato de recuperar suas palavras e reproduzir sua postura na corte, em sua tomada de testemunho ou, ainda mais, nas alegações finais fala de maneira mais efetiva sobre ele do que qualquer outra tentativa. De, inclusive, faz algo interessante ao trazer a controvérsia pela qual Gama tornou-se conhecido, ainda que não se debruce sobre ela E o julgamento histórico, que marcou o judiciário brasileiro, emociona.

O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa

Luiz Gama

Em um país que costuma apagar seus verdadeiros heróis, que ignora as figuras que marcaram e mudaram a vida de todos os brasileiros, que elimina toda e qualquer história escrita por seus pretos e pretas, é fundamental que homens como Luiz Gama sejam conhecidos por todos. Que bom vê-lo hoje nos cinemas, e que bom saber que hoje ele vai ser conhecido por mais pessoas.

Um grande momento
Alegações finais

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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