Crítica | Festival

King Kong en Asunción

(King Kong en Asunción, BRA, BOL, PAR, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Camilo Cavalcante
  • Roteiro: Camilo Cavalcante
  • Elenco: Andrade Júnior, Ana Ivanova, Juan Carlos Aduviri, Fernando Teixeira, Maycon Douglas, Georgina Genes
  • Duração: 90 minutos
  • Nota:

A abertura de King Kong en Asúncion deixa logo claro que o cineasta de A História da Eternidade está de volta. Esteticamente impressionante, essa sequência mostra que uma vez mais Camilo Cavalcante galga sua obra por meio da atmosfera, a princípio, que chama atenção pra si antes mesmo da narrativa se estabelecer, como já o tinha feito antes. Seu protagonista é um matador de aluguel que deveria estar aposentado, mas esse início já deixa claro que os serviços ainda são feitos. Depois de uma promessa a Deus na tentativa de retornar à “limpeza” de outrora e literalmente perseguido por fantasmas, o velho sai errante na tentativa de redimir seus pecados.

Passeando constantemente por desertos, por campos solitários e quase sem esbarrar em conhecidos, o filme reflete através das ações de seu protagonista o estado de espírito do mesmo: refletindo sobre seus crimes, atormentado pela culpa, a fuga que começou no Brasil há 40 anos atrás o levou a vagar sem rumo imerso em suas reflexões, e Camilo não traduz esse cansaço de seu personagem, ele simplesmente filma essa jornada de remissão ininterruptamente, com detalhamento a respeito do que ela representa – fazer as pazes com o passado é perdoar-se, e livrar-se enfim da culpa abraçando a liberdade.

King Kong en Asunción

Camilo, depois de realizar um longa cuja comunicação com o Brasil profundo e seus códigos, suas histórias cruéis, em King Kong en Asúncion revisita essa violência entranhada no coração do país adicionada a temperos que formaram a cinefilia mundial, como o faroeste, as produções da Nova Hollywood, em pitadas que vão de Monte Hellmann a John Cassavetes, e dessa salada mútlpla nasce esse bicho estranho no cinema brasileiro, cheio de camadas insuspeitas, que vaza por muitos cantos e se comunica com seu diretor da maneira mais estranha, repleta de lombadas no caminho.

Não é fácil analisar um filme que encara diversas encruzilhadas e escolhe sempre o risco, deliberadamente. Mas esses riscos corridos por Camilo fazem com que seu filme tenha um vigor inesperado, porque sua próxima jogada nunca é esperada. O “quadro completo”, como o filme se apresenta ao final da jornada, é positivo mesmo que suas passagens específicas não sejam necessariamente um acerto. Ao olhar pro material como um todo, o que salta aos olhos é exatamente esse excesso generalizado, essa busca contínua pelo artifício, que subverte o olhar a todo tempo e nos condiciona, em determinado momento, a esperar algo cada vez mais agudo.

King Kong en Asunción

É nesse jogo ambíguo entre o que apresenta, o que propõe, as fomas que encontra para contar sua história, é que transformam King Kong en Asúncion em mais uma radicalidade da cercania nacional de Gramado 2020. Encarcerada entre docs musicais sem novidades, um filme indefensável e três ousadias estético-narrativas, a chegada do filme de Camilo Cavalcante faz a balança da seleção pender para uma direção menos óbvia, ainda que seus diretores sejam apostas de autoralidade garantida. Esse não é o caso do autor de A História da Eternidade, que não se contenta com o caminho fácil, que seria tentar agradar quem abraçou seu longa anterior – ele quase os repele.

Procurando uma voz particular entre tantas oferecidas, o diretor pernambucano desafia indagações e vibra seus caminhos de maneiras destemperadas. O resultado é um filme de desenvolvimento inesperado e resultado irregular, mas que nunca deixa de seduzir com suas tintas fortes e sua chacoalhada formal; se o espectador não capturar sua inesgotável fonte de informações, talvez possa se enternecer pela recuperação de um homem sem alma. Os que buscam uma certa efervescência, porém, talvez encontrem uma resposta para seus pedidos mais despirocados; King Kong en Asúncion não para quieto mesmo.

Um grande momento
O homem-bicho sai da jaula

[48º Festival de Gramado]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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