Crítica | Streaming

Meus Encontros com Amber

Vem cá, me dá a mão

(Dating Amber, IRL, GBR, EUA, BEL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: David Freyne
  • Roteiro: David Freyne
  • Elenco: Fionn O'Shea, Lola Petticrew, Sharon Horgan, Barry Ward, Simone Kirby, Evan O'Connor, Ian O'Reilly, Emma Willis, Anastasia Blake, Lauryn Canny, Shaun Dunne, Adam Carolan, Peter Campion
  • Duração: 92 minutos

A adolescência é a idade da inadequação, estranhamento e rupturas, quando olhamos para nós mesmos e naturalmente nos sentimos deslocados de grupos, da família e até de nós mesmos. Embora o material humano seja o mesmo, o tempo passa e as sociedades evoluem em alguns pontos. A geração atual discute o bullying e tem uma outra postura com a diversidade, por exemplo. É bem diferente do que acontecia no passado. Eddie e Amber, os protagonistas de Meus Encontros com Amber, novo título do selo TNT Originals, já nem poderiam ser classificados como “cringe”, pois estão fora da disputa do momento por serem  de uma geração ainda mais antiga que a millenial.

Se hoje a conversa sobre a sexualidade é muito mais aberta e natural, se existe alguma visibilidade, na década de 1990, a comunidade LGBT ainda era mais marginalizada, havia uma perseguição de certa forma validada pelo Estado e o estigma da AIDS pairava sobre a cabeça da comunidade gay. Este é o contexto do filme de David Freyne, diretor e roteirista, aqui num tom muito mais alegre e otimista do que em seu longa anterior Os Curados, mas que mesmo mais divertido e leve, não esquece toda a carga de preconceito e melancolia que o tema traz, principalmente em uma pequena cidade do interior da Irlanda, onde homossexuais são tratados sem nenhum respeito.

Meus Encontros com Amber

Ali, entre vídeos da aula de educação sexual que ilustram comicamente que “a vagina da esposa foi feita para receber o pênis do marido” e as gozações cotidianas e agressivas dos colegas de classe, os dois jovens precisam lidar com os desejos “inadequados”, em uma microssociedade sem exemplos e cheia de outros problemas. Naquele universo, Freyne fala também de masculinidade tóxica, influência da religião na educação, militarismo e intromissão estatal na família, entre outras coisas. Elementos que mereceriam muito mais atenção em qualquer relação social, mas… 

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Eddie e Amber se veem isolados nesse lugar e, cada um à sua maneira, tenta mudar aquilo: ele quer adequar-se, ela, fugir, mas como fazer isso nessa fase da vida? E os dias vão seguindo-se em chateações e constrangimentos constantes. A ideia de se unirem para enfrentar a realidade acaba sendo a saída mais segura e abre um caminho bem fértil para a história, que leva a narrativa para a estrutura batida, mas funcional, das comédias românticas, com uma pertinente adaptação. Meus Encontros com Amber ganha por se encontrar nessa familiaridade, pela graça com que vai se construindo e também por ter em seu favor a química entre Finn O’Shea e Lola Petticrew nos papéis principais.

Meus Encontros com Amber

Ainda que falte dedicação aos personagens satélites, o roteiro cuida bem dos protagonistas, distinguindo os dois, e traçando uma contraposição que faz bem ao longa, com laços que engrandecem a trajetória de ambos enquanto casal não-casal e enquanto indivíduos dentro das próprias descobertas. É muito bonito ver como ela vai desabrochando para vida e, mesmo que doloroso, como ele faz o caminho inverso até finalmente se aceitar.

A força deste encontro em um mundo que não aceita — e aceitava muito menos no passado — foi determinante na vida destes dois adolescentes e Meus Encontros com Amber consegue transmitir justamente a importância do suporte. Porque o caminho da saída do armário e da própria descoberta, por mais individual que seja, e sempre é, é muito mais fácil quando o apoio existe. O mundo mudou, é um fato, os exemplos existem, são vistos e encorajam, mas o preconceito e a intolerância ainda está em todos os lugares, e isso não tem mais o menor cabimento. Que isso mude. Logo! Mas, até lá, que todos os Eddies do mundo encontrem as suas Ambers.

Um grande momento
Baby gay

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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