Crítica | Streaming

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite

(MIdsommar, EUA/SWE, 2019)
Terror
Direção: Ari Aster
Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill
Roteiro: Ari Aster
Duração: 148 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Midsommar: O Mal não Espera a Noite

Lançado um ano após Hereditário, que assombrou muitas plateias e críticos ao trazer uma família disfuncional tendo que lidar com a herança de uma seita maldita, a convocação de daemones e a emancipação de um menino tolo tornado homem – mesmo que às custas da decapitação de sua mãe e irmã – agora Ari Aster se concentra na cura da jovem que repentinamente está só no mundo.

Anunciado pela produtora A24 (também responsável por Corra!) como um ousado filme de terror à luz do dia, Midsommar: O Mal Não Espera a Noite deixou muitos desnorteados, desinteressados ou até enojados com sua pegada gore/pagã. Agora disponível no Prime Video, esse segundo filme foi meio que uma encomenda dos produtores suecos Martin Karlqvist e Patrick Andersson, que queriam convencê-lo a filmar no país nórdico uma obra do gênero horror folk, cuja obra mais conhecida é o cult O Homem de Palha com Christopher Lee. À história em uma comunidade isolada, em harmonia com a natureza e com seus rituais pouco usuais, Aster teria acrescido um tom de melancolia e uma camada a mais a história, que traria um relacionamento abusivo ou problemático – semelhante ao que o próprio cineasta tinha e que terminou no período em que começou a escrita do roteiro.

Poster de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019)

Florence Pugh (Adoráveis Mulheres) domina o filme de ponta a ponta, emprestando seu talento em forma de angústia e desalento para compor a carente Dani, que só quer ser acolhida pelo namorado, Christian (Jack Reynor, de Sing Street: Música e Sonho). Em meio ao torpor provocado por um inverno trágico, ela adentra em uma espécie de sonho psicodélico e ensolarado. Sem mãe, pai, nem irmã, Dani chega em Harga, uma comunidade rural no interior da Suécia, para passar nove dias em relaxamento. Mas logo – e com auxílio das drogas naturais que crescem por lá – começa um pesadelo onde a menina que perdeu tudo está presa num longo dia, onde vê pessoas voando do alto do abismo, um urso à caça e dança para voltar a vida e ser coroada pelo grande rei sol.

Esse é o solstício de verão e a festividade que ocorre a cada 90 anos na comunidade do amigo Peele. As representações pictóricas espalhadas ao longo de Midsommar dão pistas do que está por vir ou resumem logo toda a trama e elas estão presentes desde a cartela inicial do filme, com o mural e os desenhos de inspiração medieval que reconta essa narrativa, passando pelos quadros no apartamento de Dani (o urso e a garota de cabelos dourados, a velha baleia ferida sendo picada pelos pássaros), os lenços pintados pendurados e as pinturas por todo o galpão onde dormem os convidados. Essas pinturas trazem as tessituras da trama que Ari Aster escreve e dirige. Entregam demais para olhares mais argutos? Talvez sim.

Poster de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019)

Ao contrário de Hereditário, que também orquestra o desenvolvimento da trama a partir dos símbolos pagãos e da casa de bonecas que antecipa alguns momentos macabros, Aster torna esse pesadelo diurno numa espécie de delírio de uma comunidade neo pagã que, em poucos momentos, realmente assusta mais do que aflinge. Nenhum personagem é bem delineado como Dani e por essa razão, pouco importa o destino deles.

O designer de produção de Midsommar, Henrik Svensson, apelou para uma ampla pesquisa, de forma a utilizar as runas, os desenhos e pinturas não só para expressar as tradições pagãs daquele povo mas também para estabelecer vínculos atrativos na trama. Esse esmero compensa a falta de profundidade dos personagens masculinos que cercam a protagonista feminina? Dificilmente, mas atinge alguns momentos de êxtase como quando o sangue dos anciãos impresso nas runas fundamenta a continuidade no ciclo da vida, da renovação. Assim como o ritual de fecundação da irmã de Pelle por Christian, e Dani abençoando as plantações é parte desse ciclo, frutificando e fertilizando. Já a histeria coletiva que se segue a descoberta da traição, quando a jovem sente o pertencimento e se torna a algoz do ex-namorado.

A conexão com o quadro na casa dela, onde a menina beijava o focinho do grande urso que chorava, fecha ciclicamente o relacionamento deles, já que Dani está sendo misericordiosa com Christian, costurado na pele do urso – animal de porte imponente e simbolizado na cultura nórdica como o espírito dos ancestrais. Ao acender a fogueira no coração, ela então elimina qualquer elo com o passado e se impregna do senso de comunidade ao comandar o ritual, o que é catártico, porém vazio pois já esperado. Guardada as obviedades, a saga da rainha de Maio codifica luto, aceitação e renascimento em um arcabouço mítico nórdico numa clara demonstração de que Ari Aster ainda tem muita lenha para queimar – e que continue surpreendendo.

Um Grande Momento:
O gozo coletivo do sagrado feminino.

Poster de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019)

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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