Crítica | Streaming

Monstros e Homens

Representante tímido do gênero

(Monsters and Men, EUA, 2018)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Reinaldo Marcus Green
  • Roteiro: Reinaldo Marcus Green
  • Elenco: John David Washington, Anthony Ramos, Kelvin Harrison Jr., Chanté Adams, Jasmine Cephas Jones, Nicole Beharie, Rob Morgan
  • Duração: 96 minutos
  • Nota:

Filho de Denzel Washington, John David Washington deslanchou sua carreira em 2018, graças à participação em projetos relevantes como O Velho e a Arma, canto de cisne de Robert Redford; Infiltrado na Klan, incendiário vencedor do Oscar de Melhor Roteiro do iconoclasta Spike Lee; mas antes de todos esses, em Monstros e Homens, pelo qual seu diretor Reinaldo Marcus Green venceu o Prêmio Especial do Júri em Sundance por Melhor Filme de Estreia.

Monstros e Homens fez certo barulho, colocando tanto ator quanto diretor no mapa – atualmente, Green está com o drama biográfico Good Joe Bell com Mark Wahlberg em pós-produção e filma a biografia esportiva King Richard com Will Smith. E, vendo o filme, não é difícil entender a razão do impacto: aqui vemos como repercute a execução de um homem negro pela polícia e como a tragédia repercute na vida de três homens. Manny (Anthony Ramos), que presencia e filma o evento, publica o vídeo e sofre retaliações; o policial negro Dennis (Washington) têm sua lealdade dividida entre corporação e comunidade; e a jovem promessa do esporte Zyrick (Kelvin Harrison Jr.) experimenta uma súbita tomada de consciência política.

De forma que lembra o que o polonês Krzysztof Kieślowski organizou em sua Trilogia das Cores, as três histórias percorrem uma temática semelhante, mas nunca se encontram de fato; suas intercessões são pontuais e eventuais, já que conta menos a trama aqui e mais a investigação daqueles três personagens e como suas vidas, em maior e menor grau, da maneira mais concreta (caso de Manny) até a mais simbólica (caso de Zyrick).

Monstros e Homens, filme de Reinaldo Marcus Green

Em todos os núcleos, fica a pergunta: até onde se deixar afetar pelos eventos à sua volta? Até onde se comprometer? A fotografia digital é rápida e nervosa, acompanhando os personagens em fatias de vida, explorando seus muitos silêncios onde podemos inferir diálogos internos que estejam enfrentando; o uso das lentes objetivas, iluminadas e próximas a ponto de desfocar qualquer relação com o fundo. Em cena, aqueles personagens são praticamente tudo que existem, junto com seus demônios interiores. A tragédia que detona os conflitos é filmada assim inclusive – não o fato em si, mas a reação ao mesmo.

Porém, sendo uma coletânea de três histórias, quase como uma antologia sobre o tema, nem tudo funciona de maneira orgânica, uma vez que os conflitos, uma vez apresentados, logo são deixados para trás em nome da próxima história. Tudo bem que sim, estamos falando de uma vertente mais contemplativa, muito à moda de Barry Jenkins tornou proeminente em seu vencedor de Melhor Filme Moonlight – Sob a Luz do Luar, mas apenas o último arco de Zyrick conta com uma espécie de debate de ideias, desenvolvimento e encerramento, com o estudo de personagem chegando à algum lugar; os dois primeiros atuam como uma denúncia dos maus tratos da polícia e uma reflexão que a polícia deveria ter mas nunca chegam.

Ainda assim, nessa abordagem de uma comunidade, Monstros e Homens consegue articular momentos interessantes através de uma certa repetição estilística, pois afinal de contas cada capítulo do filme – incluindo o seu prólogo – abre com a polícia parando ou revistando cada um de seus personagens principais. Inspeções essas reiterativas e gratuitas (como afirma o personagem de Washington, “já fui parado seis vezes pela polícia esse ano, e ainda estamos em junho”). Assim, o filme mostra que o horror da sua situação não é pontual, mas estrutural.

Monstros e Homens, filme de Reinaldo Marcus Green

Sim, pois apesar do filme fazer alusão à morte de Eric Garner, enforcado até a morte em 2014 pela polícia após ser acusado como suspeito de vender cigarros contrabandeados, dois anos depois, quando o filme chega às plataformas de streaming, os EUA saíram às ruas durante plena pandemia do coronavírus para protestar contra a morte de George Floyd, também sufocado até a morte após ser acusado de tentar comprar cigarros com dinheiro falso. Com o movimento Black Lives Matter alcançando proeminência mundial ao debater o excesso de força empregado por policiais brancos contra a comunidade negra, o filme soa tristemente atual em cada pequeno detalhe.

Ainda assim, o excesso de silêncio e introspecção do filme atua tanto na construção de momentos de raro beleza como também solapa a sua força; sua quase absoluta recusa pela confronto (mesmo a conversa do pai de Zyrick ao tentar dissuadi-lo é uma longa exposição bem-fundamentada) o faz ser ofuscado frente a outros exemplos recentes, como os já citados Moonlight e Infiltrado na Klan e a pequena pérola Ponto Cego. Mas mesmo que inseguro nesse ponto – o que pode ser atribuído à falta de maturidade do diretor em seu primeiro filme, entrega um retrato intimista e impressionista de uma chaga aberta da sociedade americana, justificando a assistida.

Um grande momento
Quando se comprometer? Pergunte à Zyrick em seu momento final.

Ver “Deuses e Monstros” no Telecine

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
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