Crítica | Festival

Mugunzá

Graves e agudos

(Mugunzá, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Musical
  • Direção: Ary Rosa, Glenda Nicácio
  • Roteiro: Ary Rosa
  • Elenco: Arlete Dias, Fabrício Boliveira
  • Duração: 95 minutos

Ary Rosa e Glenda Nicácio, quem diria, viraram uma grife. Há 5 anos, durante aquele Festival de Brasília histórico, Café com Canela não apontaria que, com aquele grau de honestidade e alguma simplicidade, hoje eles já teriam uma obra extensa, para o que imaginamos em tempo corrido. Eles simplesmente fizeram e fizeram, e hoje, homenageados por um dos maiores festivais do país, a Mostra Tiradentes, seus esforços parecem mais que reconhecidos. Na verdade, há muito mais afeto e coração em uma empreitada pouco óbvia que nos leva a Mungunzá, seu novo filme e que foi a abertura oficial do evento. Ainda atordoado, escrevo o texto menos de 24 horas depois de encerrada a sessão e posso dizer que, enfim, conversamos – eu e seu cinema. 

Com franqueza e gradativo relaxamento, fui observando o caminho se abrir rumo a seus autores em um filme que comporta o que antes me incomodaria; agora, as peças se encaixam em uma obra audaciosa e sem concessões. Filmes como Até o Fim me mantinham em uma faixa de entendimento de aceitação entre seus personagens. Eles eram mais do que equivalentes, na verdade um espelho muito nítido uns dos outros. Havia pouco contraste em suas texturas, mas uma aceitação de suas semelhanças. Em Mungunzá, o roteiro de Rosa compreende diversos personagens, sempre em atrito a partir de suas ranhuras. Essa compreensão se dá de maneira tão absorvente que parece supérfluo dizer que suas personalidades contrastam, e completam o quadro geral da obra. 

Apesar de se inserir num universo de gênero, Rosa e Nicácio se mostram absolutamente maduros de sua trajetória, com disposição à uma tentativa de reviravolta, para revisar sua obra e colocar seus códigos em um contexto onde eles se potencializam. É tempo então de organizar a filmografia a um ponto da provocação, e enfim assumir frontalmente seu caráter de artifício. O flerte com o teatro já tinha pontuado seus filmes anteriores, especialmente Voltei!, mas em Mugunzá isso se concretiza como linguagem. Em cena, dois atores, e um deles desempenha ao menos quatro papéis. As possibilidades que o palco oferece são aproveitadas aqui, na forma de uma alegoria política esfuziante, que se encontra com o nosso tempo e dele extrai os elementos necessários para a identificação e o humor.

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A ideia de mergulhar no que consistiu sua formação dramática (no caso, a teledramaturgia) cria em Mugunzá arquétipos que parecem ter povoado a mente de um Dias Gomes, por exemplo. É a história de um poderoso local que deseja destruir os menos favorecidos, que se julga onipotente mas que não conta com a força do destino, que une seu filho a sua desafeta e adversária social. A forma como o roteiro de Rosa abraça esses signos é muito forte, porque compreende a importância do clichê como força motriz de dramaturgia, independente dos paliativos para sua utilização. É uma questão poderosa que é abraçada por uma narrativa cheia de floreios, que se dá no extra filme (incluindo um passado não filmado), mas também entende que precisa carregar o espectador em sua expressividade. 

Ajuda a dupla de diretores na construção de um código genético viável para sua posição as interpretações de Arlete Dias e Fabrício Boliveira, que entregam dois trabalhos de natureza complementar. Dias esteve em todos os filmes da dupla e aqui vive uma personagem cheia de lados, em registro que se aproxima do que Rosa e Nicácio geralmente pedem aos seus atores. O que a potencializa é a presença de Boliveira, que não chega – a princípio – à região aguda de sua companheira de cena. O protagonista de Simonal representa todos os homens da obra e precisa modular seus códigos, de modo a sempre surpreender e mover Dias a lugares díspares. Isso é um dos fatores que faz de Mugunzá o filme mais equilibrado dos diretores, o que mais se move sempre em frente na hora de prover entretenimento e reflexão, em igual medida. 

Adentrando uma possível nova fase iniciada em um lugar menos demarcado do artificial, mas compreendendo que só o artifício pode resgatar uma obra de sua vocação natural para o exagero. O que Mugunzá libera é a ênfase de Ary Rosa e Glenda Nicácio no encontro com o outro, e sua crença de que uma obra só vive dessa troca; aqui, essa experiência é amplificada para a inclusão de múltiplas camadas de arte – o teatro, o musical, o folhetim. Do encontro entre esses tantos de moldes cinematográficos, reside a alegria de comunicar com tantas vertentes, que os diretores tratam de mantê-los indomáveis. É essa ideia de multiplicidade cênica e adequação estética que eleva seu novo filme ao posto de melhor de sua carreira. 

Um grande momento

O pastor

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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