Crítica | Festival

L’immensità

Dizem que sou louco

(L'immensità, ITA, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Emanuele Crialese
  • Elenco: Penélope Cruz, Vincenzo Amato, Luana Giuliani, Patrizio Francioni, María Chiara Goretti, Penélope Nieto Conti, Alvia Reale
  • Duração: 96 minutos

Gaslighting. Manipular até obter alguma vantagem pessoal, mas, indo mais fundo, fazer com que alguém vá aos poucos deixando de acreditar na sua própria sanidade. Um dos mais cruéis meios de violência psicológica e, talvez, o mais próximo e comum de todos. O termo, que recentemente foi escolhido “a palavra do ano” pelo dicionário Merriam-Webster, surgiu com a peça de “Gas Light”, filmada para a TV em 1939 e adaptada para o cinema em 1944, como Gaslight ou Á Meia Luz no Brasil, onde o marido, manipulando a iluminação da casa onde mora, faz sua esposa acreditar que está enlouquecendo. Em L’immensità são dois os personagens que a sociedade quer enlouquecer.

“O que você fez agora?” diz Felice parado no meio da sala, ou no que restou dela, a uma Clara que está acuada e não tem mais meios para reagir. Não que tenha melhorado muito, porque relações tóxicas seguem sendo iguais, mas, sem dúvida, era muito mais difícil ali no começo dos anos 1981. É quando se passa o longa de Emanuele Crialese, que conta a história de uma tradicional família italiana. Constituída no seio da santa igreja, seguindo todos os ritos e protocolos do patriarcado, porém, tem em seu seio duas almas que não se enquadram ao sistema. As “loucas” são Clara, uma mulher que nasceu no tempo errado, grande demais para aquela vida tão padrão, que acredita que bater não é a solução e na liberdade que não pode ter; e Andrea, um homem que nasceu no corpo errado, menino que tem que viver a vida que querem, lidar com a incompreensão de todos à sua volta e, além de tudo, precisa entender a si mesmo.

L'immensità
Cortesia Sundance Institute

Crialese, diretor trans, volta a sua própria realidade e alcança a complexidade desses momentos com um filme tocante. Seu retrato de uma sociedade machista, preconceituosa e excludente, se equilibra entre o humor e o drama, e é muito palpável em toda a convenção familiar, seja no núcleo, com a dinâmica do cotidiano — na irmã que não come direito e nas brigas do casal — ou na italianidade dos tradicionais encontros de férias e das grandes festas de fim de ano com as mesas das criaças separadas. Entre suas imagens, festas e aprontações infantis, momentos onde as relações e personas relamente se estabelecem. A quebra após a apresentação de Felice ao espectador, por exemplo, depois de um número performático de Clara e seus filhos, onde, após sua chegada, o patriarca joga todos na sombra, mostra bem o seu papel naquela família.

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O diretor, porém, demonstra bem que sua visão é uma marca da memória, ou seja, imprecisa e fantasiada, e vem contagiada pela infância/adolescência de seu protagonista com toda sua fúria e seus hormônios. A imagem da mãe, sua fortaleza e maior admiração, e o encontro do primeiro amor, numa comunidade isolada de trabalhadores excluídos pela sociedade, rejeitados assim como ele. L’immensità é enfático nas dificuldades e nos maus momentos daquele menino e sua mãe, mas destaca com cores e belas tomadas aquilo que existe de positivo.

L'immensità
Cortesia Sundance Institute

Penélope Cruz (Mães Paralelas) está incrível como a mãe que alterna entre tantos estados e que se encontra em tantas situações, mas não surpreende mais do que a jovem e desconhecida Luana Giuliani, motociclista de Superbike e atriz escolhida por Crialese para viver seu alterego. Entre a doçura e a indignação, seu Andrea é um personagem cheio de camadas e complexidades e ela consegue atingir todas elas. Além das duas, o elenco é eficiente, sem grandes destaques, e o diretor se mostra habilidoso na condução de atores, em especial no trabalho com crianças.

Com muitos pontos positivos, L’immensità é um filme que vai fácil e emociona em vários pontos. Tem algumas questões, como a demora da relação com a televisão, que acaba ganhando uma relevância grande na narrativa de repente, com longos e divertidos clipes musicais, mas nada que comprometa a experiência. O maior porém, talvez, seja o fato de deixar pelo caminho a situação das personagens, algo que se pode entender levando-se em consideração que se trata do recorte temporal de uma história não concluída. Há indícios de uma solução, ainda que não sejam tão óbvios, como a fantasia de Zorro ali no final, mas vindo de alguém que sempre enfrentou tudo e todo mundo de maneira tão direta e corajosa, por maior que fosse o gaslighting, isso é pouco demais. 

Um grande momento
A conversa na escadaria

[Sundance Film Festival 2023]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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