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Não Vá

A dor do macho

(Kal, TUR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Romance
  • Direção: Ozan Açiktan
  • Roteiro: Sami Berat Marçali
  • Elenco: Burak Deniz, Dilan Çiçek Deniz, Ceyda Düvenci, Berrak Tüzünataç, Ersin Arici, Sükran Ovali, Dolunay Soysert, Yusuf Özkoç
  • Duração: 101 minutos

Mais uma produção turca desembarca na Netflix, e esse novo é, dos últimos lançados, o que mais embarca em uma proposta estético-narrativa ligada ao naturalismo. Não Vá é um drama romântico existencialista, sobre a piração de um cara depois que é abandonado pela namorada sem aviso prévio. O filme (e a cabeça do personagem) misturam dois tempos distintos, o presente de terra arrasada e o passado reluzente, sem dar espaço para que o espectador respire ou encontre um sentido particular na decisão, ao menos no pensamento mecânico. Conforme as coisas se desenrolam, o filme vai criando camadas psicológicas ao estado de espírito do personagem, que se desenvolve de maneira estridente e deixa um rastro de incompreensão por onde passa. 

O diretor Ozan Açıktan tem lançado uma média de um filme por ano na Netflix (os títulos anteriores foram Memórias de Verão e Expresso do Destino), e se ele não está entre as cadeiras mais brilhantes da Turquia, também não passa vergonha. Poderia dizer que, ao menos entre esses três citados, Não Vá é o que carrega maior ambição justamente por propor algo tão simples de aparência, em sua premissa. No fundo, trata-se de uma produção que almeja alguns degraus de complexidade, tendo em vista essa junção entre dois tempos indiscriminadamente. Vale como exercício narrativo, é uma brincadeira que chega a interessar por algum tempo, mas que ao não sair da mesma roda de intenção, também acaba por cansar. 

Em determinado ponto da duração, Semih acaba pintando o cabelo, e o tempo acaba sendo diferenciado pelo protagonista que mudou de visual. Fica a impressão clara de que isso foi uma estratégia para esclarecer alguns a respeito da mudança dos tempos. Não se trata de um filme didático e nem teria razão de ser, tendo em vista que nada é hermético; apenas é um jogo de linguagem que ajuda ao filme ter uma discussão outra que não apenas a condição de seu personagem central. É um círculo interessante de ser observado, porque Semih está à deriva e não pede ajuda, logo estará prestes a afundar em seus jogos particulares, sendo que o mais surreal deles é o da procura do novo apartamento. 

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O protagonista Burak Deniz ajuda o filme a não perder nossa atenção. Em sua performance orgânica, cheia de vigor, rapidamente somos tragados à empatia por aquele homem, apesar dos muitos defeitos que o sujeito heterossexual cis e branco tem por si só. Seu cartão de visitas é um desastre, sua abordagem é quase criminosa, mas há algo ali que nos chama atenção, principalmente enquanto personagem. Não é difícil conjecturar sobre os motivos que levaram Defn a abandoná-lo, e o filme nos vai servindo muito paulatinamente uma gama de informações a respeito dessa personalidade tão rica dramaticamente quanto desagradável, do ponto de vista do macho padrão – que é o que ele efetivamente é. 

A montagem de Erkan Erdem também ajuda a desenvolver em Não Vá essa confusão bem-vinda, criando no filme uma atmosfera de instabilidade do desenrolar de seu roteiro. Se a produção não sustenta esse interesse por todo o tempo, isso não é uma demanda contra seus aspectos em separado, e sim uma constatação a respeito da rapidez de sua conclusão. Por mais que o filme desdobre bem seus campos de colocação, fica a impressão de que um média metragem seria o suficiente para contar essa história. Com a duração que tem, o filme não consegue segurar seu fôlego até o fim, embora siga discorrendo sobre como os problemas que o macho arruma pra própria vida estão debaixo do seu nariz, ele só precisa atentar para a verdade óbvia das coisas. 

Um grande momento

A explicação final

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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