No cinema com a falta de educação

Hoje, antes de falar dos filmes que eu vi, de festivais e mostras que acontecem, ou de dar dicas de sites e brincadeiras, quero falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo e que, infelizmente, ainda vai incomodar mais.

Ultimamente a humanidade passa por um surto de individualismo extremo e é cada dia mais comum vermos as pessoas se fecharem em seus mundos particulares, ainda que eles não sejam tão particulares assim. Atividades coletivas, onde o mínimo de gentileza e consideração são necessários deixam de funcionar gradualmente.

O trânsito já não flui porque você acha que tem todo o direito de fechar um cruzamento ou de não dar passagem a ninguém em um retorno, já que chegou ali primeiro. As filas perdem o sentido, uma vez que você pode procurar algum amigo para se aproveitar da posição dele, que chegou muito mais cedo, para conseguir o ingresso. Ou então é aquela grávida, aquele idoso, que você finge que não vê quando está na boca do caixa no banco ou sentado no metrô/ônibus/trem.

Mas se eu for citar todas as situações aqui, acho que não vou parar de escrever nunca mais. Cada fato do tipo, cada situação são exemplos de uma falta de humanidade gradual e negam cada vez o poeta e metafísico John Donne, para quem nenhum homem é uma ilha, e transforma cada ser humano em um uma parte isolada de um arquipélago.

Agora, por que tudo isso? Porque ontem eu passei por uma situação completamente surreal e preciso falar sobre isso aqui.

Como faço freqüentemente, já que tenho filhos, fui assistir à última sessão do cinema. O filme da vez era Budapeste e, tanto pela hora como pelo tempo em cartaz, o número de pessoas na sala era pequeno. Nove, para ser mais exata.

Sentei no meio e já percebi que a sessão seria problemática. Um casal sentado à minha esquerda e duas meninas, à direta, não paravam de falar. Antes de me estressar, pensei que a conversa só duraria até os primeiros momentos do filme, mas claro que estava enganada.

Como o assunto não tinha terminado, eles não pararam de falar porque o filme começou. Eu pedi silêncio e para minha surpresa ouvi um “ah, vai se f#$%er!” das meninas à direita. Claro que eu fiquei indignada com a resposta. Por mais que tenha estado com gente sem noção no cinema, nunca tinham falado nada por eu ter pedido silêncio. Mas resolvi insistir e falei (agora eu atrapalho os colegas da sala): “se quer conversar, não vem ao cinema para atrapalhar os outros”. De pronto a mais nova delas disse: “eu falo onde eu quiser. Se você está incomodada, vai lá pra frente!”. A outra mulher, envergonhada, ainda tentou fazê-la parar de falar, mas ela ainda disse: “ela pediu. Ninguém me manda calar a boca”.

Constrangida, me encolhi na minha cadeira e fiquei quieta, antes de, sei lá, tomar uma surra. Mas fiquei arrasada e pensando sobre tudo que tinha acabado de acontecer. Como assim alguém acha que pode ficar falando durante o filme? E, pior, pensar que as outras pessoas não têm o direito de se incomodar e pedir silêncio? Essas pessoas não têm mãe e pai para dizer que não podem se comportar assim no cinema e, muito menos, falar assim com as pessoas?

Pode parecer maluquice, mas, para mim, ir ao cinema é um programa cheio de rituais e momentos. Eu gosto de me preparar para aquele filme que está por vir, o escuro tem um significado, os trailers tem outro e o início do filme também. A minha ligação com o filme depende disso e uma vez dentro daquela história não quero ficar me lembrando que estou no cinema ouvindo a tagarelice alheia.

Foram 113 minutos de tortura contínua. De um lado, o casal falava de coisas que nada tinham a ver com a história na tela e do outro a menina comentava cada cena, fala e momento do filme. Uma das coisas mais absurdas que eu já passei no cinema e, pior, com medo de fazer qualquer reclamação.

Não penso que escrevendo aqui sobre o assunto eu vá mudar o comportamento destas pessoas, ou dar alguma lição geral de como se comportar no cinema, mas espero, de verdade, que este texto faça as pessoas pensarem antes na qualidade do divertimento a que estão se propondo, no dinheiro que estão gastando e que elas, sempre, tenham o mínimo de consideração com aqueles outros seres humanos com quem estão dividindo a sala.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

22 Comentários

  1. Tem faltado é umas boas palmadas nesta juventude. Se os pais, ao invés de apaenas fazerem filhos, se preocupassem em educá-los, o mundo estaria bem difrente…

  2. Pena de morte para quem conversa no cinema!!! rsrsrs. Brincadeira. Mas também já passei por umas situações bem irritantes como essa. Me solidarizo com vc, Cecília.

  3. prezada cecília, pra mim também ir ao cinema é ato de escolha e cheio de rituais. infelizmente introduziram nas salas de cinema hábitos dispersivos, como comer, beber, falar ao celular. recentemente, reclamei a quase todas as redes de cinema daqui de brasilia BR pelo fato de eles, os donos do cinema, nao estarem mais exercendo sua obrigação de zelar pelo bem-estar da maioria dos frequentadores, na medida em que não coibem o mau comportamento de outros, inclusive o péssimo hábito desses mal educados de colocarem os pés onde provavelmente eu vou colocar MINHA cabeça ou meus braços, minhas mãos. os que me deram retorno responderam que iriam encaminhar o assunto ao setor competente (?), outros nem respnderam. lembrei a eles que, se eles nao agem por medo de perderem clientela (aqueles mal educados), que saibam que já estão perdendo a nós, os clientes que gostam de cinema de verdade. abraço

  4. Querida Cecília é exatamente isso que venho sentindo ultimamente em relação á humanidade.. eu amo cinema.. e isso que vc passou ninguém merece! Que gente sem noção.. beijos

  5. Situações deste tipo são muito mais comuns do que imaginamos. Outro dia estava numa sessão de cinema. Sou daqueles que, assim como a maioria que comentou aqui, fica na sala até que tudo esteja efetivamente terminado. Isso significa: até o final dos créditos. Para minha surpresa, a projeção foi desligada antes que aquilo ocorresse. Ou seja, nem o projetista respeita aquilo que é pago para realizar. Em suma, se quem paga acha que tem direito de berrar durante o filme; se quem ganha para cummprir o dever, não cumpre (como o projetista), o que podemos esperar? Abcs.

  6. São por essas e outras que, de uns tempos pra cá, não vou mais a cinema quando se trata de filme blockbuster (Wolverine, Anjos e Demônios, Exterminador do Futuro: A Salvação etc). É muito tumulto, falta de respeito e a sensação de que você pagou mais do que vale.

    Sétima arte sim, mas com respeito.

  7. É triste, mas é a realidade. Mês passado aconteceu algo parecido numa sala q eu estava, duas meninas comentaram o filme praticamente todo e pior, uma das duas conseguia falar ao celular e ainda comentar com a outra sobre o q viam na tela, eu fico imaginando o q se passa na cabeça dessa pessoas, sera que elas realmente acham q ngm ali está incomodado com aquilo? por mais q ninguém fale nada, é questao d bom senso ate.. sem falar na tremenda falta d educação.

  8. é por essas e outras que diminuí minha frequência aos cines. é certo que a sensação de se assistir a um grandioso filme em DVD nunca superará a magia do telão. mas do jeito que as coisas vão caminhando…

    é aquele lance: independente de se assistir um filme em cinema ou em DVD, o importante é ASSISTI-LO.
    beijo :)

  9. Eu sou um alienígena. Ou ao menos acho que sou quando entro na sala de cinema. Normalmente sou o único desacompanhado e na maioria das vezes preciso aguentar o que você teve que aturar. Nós, cinéfilos, entramos no cinema com um próposito: sonhor, viajar, refletir, comover. Outras vão para passar o tempo, beijar na boca e comentar detalhes.

    Uma pena, né?

    Ciao!

  10. Bela palavras amiga Cecília…eu me irrito a maioria das vezes q vou ao cinema…sempre, repito, SEMPRE tem alguém batendo o pe atras da minha poltrona (nao gosto de sentar na ultima)….

    Pra te falar a verdade, por esse tipo de coisa, estou esperando os filmes chegarem à locadora…Péssimo né…sei disso, mas me estresso muito fácil e se o q ocorreu com vc, tivesse acontecido comigo, simplesmente eu nao consegiria mais acompanhar o filme.

  11. Tem muita gente mal educada no cinema mesmo. Não são todos que realmente estão ali para ASSISTIR o filme, mas sim para fazer qualquer outra coisa. Lamentável…

  12. Triste, e o pior que foi em um cinema quase vazio. Um amigo meu já passou pela situação de estar apenas ele e um casal no cinema. O casal estava discutindo a relação, mas com a reclamação do meu amigo, eles se tocaram e saíram.
    A falta de educação e respeito com o espaço do outro é algo cada vez mais alarmante.

  13. Por isso é que aderi completamente ao DVD e só raras as vezes vou ao cinema. Por norma, acabo sempre por me chatear – ou é o telemovel (penso que vocês chamam de celular) a tocar a meio do filme, ou é as crianças que não param de berrar, ou os adolescentes com risadas despropositadas… enfim, é a má educação no seu melhor.

  14. Infelizmente é algo frequente nas salas de cinema. Com a criação das grandes salas, artplex e a extinção dos lanterninhas, é nada mais que o caos instalado. O que parece é que sempre existe uma matraquinha ambulante perto de quem está ali no seu ritual (perfeita colocação!). Também me irritei na minha sessão de Budapeste. Mas eqnt as pessoas se fecham no próprio mundo, a melhor saída sugerida é se fechar no seu próprio quarto e assistir em casa o filme, seja pela internet ou em DVD.

  15. É triste e compartilho da sua opinião.

    Eu por exemplo, fico agora tentando evitar ir dias promocionais ou nos cinemas mais "cheios".

    Já reduz um pouco a possibilidade de você encontrar estes 'tipos', mas não exclui ela, afinal você foi numa sessão vazia.

  16. Isso infelizmente acontece. Nunca mais fui uma sessão assim, mas a última de que me lembro foi a de Munique. Tava insuportável, mas quando funcionários do cinema foram reclamar, pararam.
    Se realmente estiver incomadado(a) tem que reclamar mesmo. Não sei como você aguentou. Se me incomodar eu reclamo mesmo, sem medo. Quem tá errado é essa pessoa, tem que mostrar isso a ela.
    No trânsito isso acontece muito também, principalmente com motos e topiques, que querem ter privilégios e chegar primeiro nos lugares. Acabam levando a pior, na maioria das vezes.

  17. É UM ABSURDO, PIOR É QUE EU ACHO QUE ESSE TIPO DE GENTE FAZ É QUESTÃO DE INCOMODAR O PRÓXIMO.

    BEIJOS

  18. É grave mesmo essa questão.

    Outro dia, minha mãe, já na casa dos 50, reclamou porque um motorista abusado havia avançado, sem o menor constrangimento um sinal de trânsito quando ela pretendia atravessar a rua.

    Ela não falou palavrões nem xingou a mãe do cara como talvez muita gente fizesse (me incluo, dependendo do dia). Apenas ressaltou que o sinal estava vermelho para ele.

    Para a sua surpresa absoluta, o cara freou bruscamente o carro, desceu, a chamou de todos os nomes horríveis que se possa imaginar e disse que se ela desse um pio, iria simplesmente (desculpe pela reprodução literal aqui) "enfiar a porrada nela".

    Fiquei triste e revoltado com esse relato. Mais triste e revoltado com o fato de que provavelmente ele levaria a cabo a sua ameaça.

    Penso mesmo que não é possível que essa pessoa tenha tido pais.

    Pra ter filhos, tinha que se ter uma licença.

    Enquanto isso a gente vai vivendo. Aturando o barulho nos cinemas, as filas furadas e olhando várias vezes pros dois lados antes de atravessar a rua.

  19. Vergonhoso, realmente, mas é a natureza do ser humano. Infelizmente isso tardará a ter um fim, já que não há educação – esse é o grande problema.

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