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No Matarás

A caminho do abismo

(No matarás, ESP, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: David Victori
  • Roteiro: Jordi Vallejo, David Victori, Clara Viola
  • Elenco: Mario Casas, Milena Smit, Elisabeth Larena, Fernando Valdivielso, Javier Mula, Aleix Muñoz, Andreu Kreutzer, Oscar Pérez
  • Duração: 92 minutos

Dani é seguido em plano sequência na abertura e no encerramento de No Matarás exatamente da mesma forma super aproximada à sua nuca, respiração ouvida, de início angustiada e ao fim afobada, mas sempre resiliente sobre uma função a fazer – cuidar e deixar partir. O protagonista que deu a Mario Casas um Goya de melhor ator nunca está necessariamente bem, mas sempre tem um foco que gradativamente é revelado pelo filme e raramente tem uma curva consciente. À beira da exasperação constante, Dani sai de uma aparente letargia ao extremo oposto da mesma, traçando em uma noite uma clara reta rumo a um abismo que o rodeou durante os últimos anos; finalmente ele parece pronto a se entregar.

O muito jovem diretor e roteirista David Victori está em segundo longa metragem, mas parece muito interessado em vibrar na efervescência de ídolos que acompanhou durante a vida. Seu filme vibra o Martin Scorsese de Depois de Horas e o Gaspar Noé de Irreversível, mas, sem conseguir alcançar a atmosfera reproduzida por um ou a intranquilidade pelo outro, passa a decalcar situações de um cinema tão ligeiro quanto raso, deixando a elucubração sensorial a cargo das tentativas. A tensão necessária para que seu filme vingue enquanto experiência cinestésica acaba descendo pelo ralo quando não há nada de muito concreto a dizer, e que não fique na conjectura.

No Matarás (2020)

Com erros de escalação, caracterização e desenvolvimento narrativo, a jornada de Dani, que parece muito óbvia a cada novo espaçamento temático, sofre por não acompanhar as intenções com a mesma força das realizações, aquém do que sua espinha dorsal necessitaria. Mesmo que moralmente seja construído com exatidão, as escolhas estéticas da produção, que passam por encaixar um homem jovem e bonito como Casas para viver um personagem decadente e emocionalmente dependente – o que não é visto quando olhamos para o ator – provocam no espectador um questionamento que invalida o roteiro de cara, que além de tudo ainda incorre em diversos níveis do velho sexismo de sempre do cinema: porque mulheres precisam estar explicitamente nuas se o mesmo não será destinado aos homens?

Os mesmos erros estéticos que cabem na percepção da escalação, também tiram a credibilidade do olhar para Mila, apresentada como uma mulher atrasada em pelo menos 30 anos no tempo, problema do qual sofre No Matarás como um todo, em anacronismo generalizado. Repleto de neons em necessariamente duas cenas, com uma personagem gótica em cena, falta coragem para Victori bancar um discurso estético mais arrojado, levando seu filme até o meio do caminho, acabando por não ter a identidade que gostaria nem ser o filme banal que poderia ser; é um amontoado de várias coisas que não decidem ser coisa nenhuma juntas.

No Matarás (2020)

O próprio prêmio para Casas (na verdade, corroborado por um grande número de associações espanholas) se mostra equivocado, quando o ator entregou um trabalho muito mais consistente em Remédio Amargo, igualmente do ano passado. Com uma proposta que parece querer dizer algo mais profundo do que evidentemente diz, o filme parece ter uma via artística mais evidente que o outro citado, mas querer nem sempre é poder. A escolha de diversos caminhos a seguir revela na produção uma isenção de escolha, um acomodamento da realização em tomar partido por um olhar que seja, abraçando diversos e encontrando problemas em sua múltipla personalidade.

Se em teoria No Matarás acompanha passo a passo a ida de Dani rumo a uma estrada sem volta, onde sua estagnação vai enfim dar lugar a uma posição mais clara ante a vida – ainda que a mesma seja pelo destino mais obscuro possível -, o mesmo não podemos dizer das opções que Victori parece ter e seguir, sempre optando por decisões equivocadas e estapafúrdias de narrativa e direção, desenvolvendo um personagem que só pode ser defendido quando pensamos na “missão que ele tem a cumprir”, mas cujo andamento para a mesma deixa a desejar desde a saída.

Um grande momento
Confronto subterrâneo

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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