Crítica | VoD

Saída à Francesa

Uma mulher saindo pela tangente

(French Exit, CAN, IRL, GBR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Azazel Jacobs
  • Roteiro: Patrick DeWitt
  • Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Tracy Letts, Valerie Mahaffey, Susan Coyne, Imogen Poots, Danielle Macdonald, Isaach De Bankolé, Daniel di Tomasso
  • Duração: 113 minutos

Há uma atmosfera de estranheza humanizada que percorre Saída à Francesa como um todo, desde o roteiro de Patrick DeWitt baseado em sua própria novela, até a mise-en-scène de Azazel Jacobs, que contribui para o clima beirando o fantasmagórico, que será justificado no seu desenrolar. Estreia em VoD, a produção que passou tímida na última temporada de prêmios, mas entende-se isso por essa situação sui generis que o filme apresenta, que tira o espectador tradicional da zona de conforto habitual ao mesmo tempo em que tenta criar um ambiente caloroso entre seus personagens ligeiramente excêntricos – ou envolvidos em atividades tais.

A excentricidade aqui já era buscada pelo livro de DeWitt, que acaba fortalecendo uma visão para aqueles personagens, que partem de uma fuga para construir uma espécie de Shangri-lá moderna, algo melancólica e com algum pé no chão para um grupo que não se entende a princípio como desgarrado da sociedade, mas acaba se reconhecendo à margem. A cada novo integrante daquele pequeno apartamento de Paris, tanto essa mensagem se fortalece como o filme parece se preocupar cada vez menos com questões como lógica e bom senso; seus tipos precisam de um refúgio, e não apenas a protagonista Frances.

Saída à Francesa (2020)

Essa aura ligeiramente fora dos eixos acompanha essa personagem central não apenas imageticamente, mas narrativamente ainda mais até. Frances (olha a pincelada explicita para a leitura psicológica) faliu, depois de anos do que acreditamos ter sido uma vida perdulária. O próprio filme nos fornece os dados para que julguemos a personagem dessa forma, já que seguidamente a protagonista será flagrada em constantes repetições de irresponsabilidade monetária. Dito isso, a ela só restará o exílio no apartamento de uma amiga na França, onde precisará se reinventar a uma existência digamos econômica, o que não faz seu estilo, digamos.

Sua personalidade, embora seja individualista, acaba por aglutinar durante essa viagem um grupo de estranhos que se aproxima dela por diferentes motivos e acabam ficando, de alguma forma. Desde seu filho, com quem tem uma relação nada usual, até o detetive particular que contrata para descobrir o paradeiro de uma vidente (!!!!), todos acabam por se conectar ao seu magnetismo pessoal, ainda que a mesma tenha uma natureza mais de repulsão que de aproximação. Essa é uma ambiguidade de tratamento da história que é bem alimentado pelo roteiro, até deixar de ser, que perde inclusive as deixas para ser mais bem humorado, justamente quando faz tanto rir, quando quer; as cenas de “interação com a vela” são hilárias.

Saída à Francesa (2020)

Toda essa ambientação acertada, que mescla sensibilidade com um olhar agudo para as idiossincrasias humanas, caminha de maneira suave até o filme encerrar no mesmo ambiente um total de dez personagens, que logo saem do lugar da curiosidade charmosa para aquele núcleo de “família disfuncional” de sempre, quando seus elementos sem conexão entre si começam a colidir. Ainda assim, Saída à Francesa não se desenha mais radical como proporia um Wes Anderson, por exemplo, e passeia por uma doçura contínua que nos impede de ver Frances como uma mulher egoísta e autocentrada, que desperdiça continuamente o futuro do filho por conta de seus caprichos extravagantes.

O elenco absolutamente heterogêneo inclui presenças como as de Lucas Hedges (indicado ao Oscar por Manchester à Beira Mar), Danielle McDonald (Patti Cake$) e Isaach de Bankolé (de Pantera Negra), mas são Michelle Pfeiffer (indicada ao Oscar por Ligações Perigosas) e Valerie Mahaffey (de Sully), ambas indicadas a prêmios aqui, que comandam o show e nos levam ao coração de suas questões. Muito mais que sua estrutura narrativa, são as duas atrizes e sua química que acabam por encantar o espectador… que pena que suas interações não ocupem ainda mais espaço em tela, para que o todo fosse menos esquemático, ao final.

Um grande momento
Um jantar inesperado

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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