Crítica | CinemaDestaque

Noite Passada em Soho

Fantasmas e feminismo

(Last Night in Soho, GBR, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Edgar Wright
  • Roteiro: Edgar Wright, Krysty Wilson-Cairns
  • Elenco: Thomasin McKenzie, Aimee Cassettari, Rita Tushingham, Michael Ajao, Synnove Karlsen, Jessie Mei Li, Kassius Nelson, Rebecca Harrod
  • Duração: 116 minutos

A assinatura visual de Edgar Wright é muito marcante – seja os takes curtos que fluem no tom ágil da narrativa, a sincronização da música com a ação ou a edição com sacadas “kuleshovianas”, o estilo cativa o olhar, de Shaun of the Dead a Scott Pilgrim – detalhadamente com uma pegada mais eficaz nas comédias mas expandindo para outros gêneros como a ação em Em Ritmo de Fuga e agora com o thriller psicológico Noite Passada em Soho.

“It keeps on haunting me
(Ghost in my house)
Just keeps on reminding me”

Aqui, a referência mais efusiva é o giallo, gênero cinematográfico e literário onde uma personagem feminina era comumente perseguida ou assombrada por um assassino. A heroína em questão, Eloise (Thomasin McKenzie) sonha em ser estilista e lida bem com a presença constante da mãe, falecida. Ganha uma bolsa para estudar moda em Londres e a mediunidade dela entra em curto na cidade, trazendo a tona lampejos do que foi a vida de Sandie (Anya-Taylor Joy), 50 anos antes.

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Noite Passada em Soho
Focus Features

Londres pode ser demais

A repetição seja de planos ou de linhas de diálogo – algo particularmente muito presente nos filmes do cineasta, como os da trilogia do Cornetto – traz uma assinatura peculiar a Noite Passada em Soho, que usa o quarto como cenário projetado para as manifestações psíquicas do passado eclodirem além da engenhosidade de um dos truques mais antigos do cinema emprestado do ilusionismo: a dança entre espelhos no espaço-tempo. Chung Chung-hoon, fotógrafo com um estilo tão elegantemente distinto que pode ser apreciado em It, A Criada e Oldboy, assina este Noite Passada em Soho acentuando nos neons da Carnaby Street – a principal rua do distrito de Soho no West London -, puxando bem a dramaticidade dos vermelhos e toda a engenharia das aparições espelhadas, loops temporais e cortes rápidos que Wright imprime em sua estética.

Swinging Sixties

A trilha musical com colagens de canções não tão óbvias mas que refletem a efervescência da Swinging London é um espetáculo auditivo que complementa todo o esplendor da reconstituição de época. Tem Cilla Black, Peter and Gordon, Dusty Springfield e Kinks. Do trabalho de composição de Steven Price, “Neon” se destaca. Imortalizada na voz de Pettula Clark, “Downtown”, na interpretação da polivalente Anya-Taylor Joy é um dos momentos mais emblemáticos e comoventes desse suspense tornado uma peça de época, que emula lindamente o charme de um “Charada”, clássico de Stanley Donen. Ou como canta Sandie Shaw “There’s always something there to remind me/That I’ll never be free”, reflexo de que a tensão, o suspense e o drama estão constantemente sendo manipulados com alguma destreza em Noite Passada em Soho.

Noite Passada em Soho
Focus Features

Passando a vida presa, oprimida pelo sexo oposto, condicionada a deixar homens monstruosos drenarem sua juventude e devorarem seus sonhos, Sandie confidencia através de convites para que Eloise sinta na sua pele a dor e a delícia de ser o “broto” de Jack – belíssimo e igualmente diabólico na pele de Matt Smith -, e o cineasta, contando ainda com o trabalho impecável de Paul Machliss, que montou todos os filmes dele e também Fleabag, constrói viagens temporais elípticas com repetições cada vez mais dramáticas que colocam a sanidade de Eloise na balança enquanto ela mergulha na nostalgia no quarto do sótão e se desassocia de si própria.

Último filme da grande Diana Rigg, que dá vida à bondosa e taciturna Sra. Collins, Noite Passada em Soho tem um destacado desempenho de seu elenco feminino, com Thomasin trazendo a medida exata de doçura e obsessão necessárias ao papel e Anya-Taylor Joy melancolicamente sedutora como a coquete aspirante a estrela. Krysty Wilson-Cairns (roteirista da série de horror gótico Penny Dreadful e de 1917) assina o roteiro com Wright, o que dá um certo alívio e faz sentido, já que o cineasta até então nunca havia dedicado protagonismo às mulheres em seus filmes. O que Noite Passada em Soho atinge aqui, em certa medida, ainda que seja – especialmente no presente -, um tanto clichê, ingênuo e um pouco afetado, é genuíno. Só pela construção dos emaranhados de fantasmas acinzentados com rostos deformados que perseguem Eloise e a revelação que os envolve já vale elogios.

Um grande momento
Morte no halloween

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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