Crítica | CinemaDestaque

O Chão Sob Meus Pés

Culpa e delírio na ausência

(Der Boden unter den Füßen, AUT, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Marie Kreutzer
  • Roteiro: Marie Kreutzer
  • Elenco: Valerie Pachner, Pia Hierzegger, Mavie Hörbiger, Michelle Barthel, Marc Benjamin, Dominic Marcus Singer
  • Duração: 108 minutos
  • Nota:

Como em uma gangorra, Lola tenta equilibrar suas duas vidas opostas. Em ambas, o peso de sua presença no espaço: culpada naquela dominada pelo passado, ou sem limites na dominada pelo futuro. A diretora Marie Kreutzer não tem nenhuma intenção de dar um tom ameno ao seu O Chão sob os Meus Pés, tanto que parte de palavras suicidas e encerra na melancólica voz de Leonard Cohen.

If the sun would lose its light
And we lived an endless night
And there was nothing left
That you could feel
If the sea were sand alone
And the flowers made of stone
And no one that you hurt

Em um de seus mundos, Lola é uma bem sucedida consultora. No outro, uma alguém que tenta mais uma vez resgatar a irmã de si própria. A direção de arte e a fotografia separam bem os dois mundos, em ambientes empresariais assépticos, impessoais e alinhados ou na confusão da vida familiar, sem contenção ou organização. Quando a divisão entre ambos se perde, quando as fronteiras são ultrapassadas, elementos de um mundo passam a interferir no mundo.

O Chão Sob Meus Pés

Em sua espiral de culpa e medo, agravada pela debilidade de um corpo prejudicado pelo estresse da rotina profissional, a protagonista vai se perdendo de si mesma e não consegue mais definir onde está. O modo como isso é executado imageticamente, com planos longos, pontuações, cores e disposições, junto com um silêncio bem colocado, traz ao longa a tensão tão fundamental para a trama.

Porém, O Chão Sob Meus Pés tem uma certa dificuldade, assim como Lola, vivida por Valerie Pachner: ele não consegue criar uma relação de troca entre os personagens e os espectadores. Fora as passagens mais fantásticas, como a do elevador ou do telefonema, tudo o que circunda sua vida está muito claro e bem definido pelo roteiro, inclusive o descontrole, o que denota uma certa falta de crença na percepção do espectador e esfria a obra.

O Chão Sob Meus Pés

Mas isso não elimina o interesse de todo. Embora este sobre menos engajado, os descaminhos de Lola, suas decepções e a dedicação permanente ao lugar que ela usa como refúgio daquilo que não quer, levam bem o filme à ruptura que o dá nome. Esta talvez seja a parte mais interessante de O Chão Sob Meus Pés (ao lado da atuação de Pachner), fazer enxergar nas ausências de corpos e falas a falta de apoios durante a queda.

Mesmo que queira falar sobre muitas outras coisas, como causas sociais, contextos humanos e sem acertar sempre, como na cena do jantar, ainda assim o filme sabe o que deve destacar. Com uma história elaborada e possibilidades várias de representação do psicológico/psiquiátrico, O Chão Sob Meus Pés trabalha bem com aquilo que não é concreto, confundindo e perturbando. Um filme imperfeito, mas com muitas qualidades.

Um grande momento
Elevador

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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