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O cinema brasileiro na Berlinale: Resistência, diversidade e uma pedra no sapato

Quem confere a programação da Berlinale em sua 70ª edição, irá constatar robusta presença do cinema brasileiro no maior evento cultural da Alemanha e no festival mais político do mundo. No mais tardar, depois de Glauber, a gente sabe que o cinema é resistência a governos opressores; até mesmo aqueles votados democraticamente. A frase do filósofo, musicólogo e sociólogo alemão Theodor W. Adorno, precursor da linha teórica “Escola de Frankfurt”, ainda exibe monstruosa atualidade, no Brasil, na Alemanha e em vários países da Europa: “Eu não temo a volta dos fascistas com a máscara de fascistas, mas com a máscara de democratas“.

O processo sistemático e previamente anunciado pelos medianos que governam o Brasil de estrangulamento do setor cultural e criminalização generalizada da classe artística não se faz visível na lista de filmes de diretorXs brasileirXs na Berlinale. Ainda. Alguns, devido ao longo processo de realização entre participação nos editais até o filme ter sua última cena editada, outros, pela teimosia de realizadorXs, incluindo quem está atrás da câmera e quem está na produção. Nesse setor, o Brasil vem sendo fazendo Una Bella Figura nos festivais de Categoria A. Produtoras do Recife, Fortaleza, Minas Gerais e do Rio Grande do Sul fazem a diferença e tomam. A mais conectada, poderosa e obcecada por levar o melhor do cinema autoral brasileiro para o seu devido lugar, da produtora Dezenove Som e Imagens em São Paulo, é a guerreira Sara Silveira. 

É também ela quem traz para Berlim o único filme na competição pelo Ursos de Ouro e Prata: Todos os Mortos, escrito e dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra. Ambientado na São Paulo de 1889, um ano depois da abolição da escravatura, o filme irá suscitar questões como o racismo institucional que começou lá atrás e a desigualdade social que se tornou muito mais grave no atual (des)governo. Esse filme, com essa temática é um golaço no Zeitgeist que acomete o Brasil, com o triunfo da elite sobre as classes pobres, os afrodescendentes e a repressão religiosa. Recentemente, a declaração do ministro Paulo Guedes sobre a “farra” que seria empregadas domésticas viajando para a Disney exibe claramente o ódio de uma burguesia podre e falida, frente ao “privilégios” de quem deveria se contentar em estar e se manter, socialmente, invisível, ou seja, na senzala. 

Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra | Foto: Hélène Louvart/Dezenove Som e Imagem

Uma pedra no sapato

A presença de um filme brasileiro já será uma afronta para o presidente que declara que o filme brasileiro não “chega nem no Oscar” e que declarou em conversa na Rede TV com a apresentadora Luciana Gimenez, em seu programa Luciana By Night, em maio de 2019, que “racismo é coisa rara” no Brasil. “Essa coisa do racismo, no Brasil, é coisa rara. O tempo todo jogar negro contra branco, homo contra hétero, desculpa a linguagem, mas já encheu o saco esse assunto“.

O que Bolsonaro chama de “assunto” será levado à baila na Berlinale e multiplicadores irão levar o tema para o mundo. Para brasileirXs que vivem na capital, será um excelente adubo para chamar atenção para o momento político que atravessa o Brasil. Junto com a temática ligada ao filme, serão também tematizados o extermínio dos jovens das periferias, a intolerância religiosa e a criminalização das cultural como instrumento de subjetividade.

Kleber Mendonça Filho | Photo: Ph. Lebruman

Uma outra pedra no sapato do atual (des)governo, será a presença constante do diretor, cineasta e ex-crítico de cinema, Kleber Mendonça Filho. Além de ser o carro-chefe de uma safra fenomenal de diretores do Nordeste (especialmente Pernambuco e Ceará), Kleber é o cineasta brasileiro de maior visibilidade, com O Som ao Redor, na lista dos Top Ten do jornal The New York Times; Aquarius apresentado em Cannes e Bacurau triunfando com o Prêmio do Júri no mais prestigioso festival do mundo.

“O “Prêmio é resposta para quem diz que Brasil tem outras prioridades”, declarou o diretor à imprensa na época. Mas a presença de Kleber no júri no festival que tem o ator inglês Jeremy Irons na presidência, deve ser ainda mais um fardo para o time de medianos que tomou conta do Brasil. Em maio de 2019, juntamente com outros diretorXs, Kleber foi notificado para devolver o montante de 2,242 milhões usados na produção de O Som ao Redor, alegando que o filme teria custado mais do que o planejado. Esses e outros argumentos são instrumentos da nova censura.

Carlo Chatrian, o novo diretor artístico da Berlinale deu uma tacada genial ao convidar Kleber. A nota política do cinema brasileiro não estará “somente” um dia presente no festival mais político, mas durante 10 dias. O interesse da imprensa internacional é certeiro: pela situação em si e pela visibilidade da qual Kleber goza por ser um dos mais premiados diretorXs dos últimos tempos e por ser uma pedra no sapato dos neopentecostais que dominaram o Brasil.

Cidade Pássaro, de Daniel Nolasco | Foto: Primo Filmes

Diversidade!

Há ainda mais Brasil na Berlinale.

Mostra Panorama: a segunda mais importante do festival:
Cidade Pássaro (coprodução Brasil/Franca), de Matias Mariana
Vento Seco, de Daniel Nolasco
Nardjes A., de Karim Ainouz, residente em Berlim e um Routinier no festival. 
O Reflexo do Lago, de Fernando Segotwick
Un crimen común (coprodução Argentina/Brasil/Suiça), de Francisco Márquez

Forum:
Lua nos trópicos, de Paula Gaitán
Vil má, de Gustavo Vinagre
Chico ventana tambien quisiera tener un submarino (coprodução Uruguai/Argentina/Brasil/Holanda/Filipinas), de Alex Piperno

Vaga Carne, de Grace Passô e Ricardo Alves Jr. | Foto: Divulgação

Forum Expanded: com foco temático mais abrangente, entre eles, Essays, instalações de video, performance etc.
Apiyemiyeki? (co-produção Brasil/França/Holanda/Portugal)
Jogos Dirigidos, de Jonathas de Andrade
Vaga Carne, de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.

Generation14plus: para o público adolescente
Alice Junior, de Gil Baroni
Irmã, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
Meu nome é Bagdá, de Caru Alves de Souza

Berlinale Shorts: curtas-Metragens
, de Julia Zakia, Ana Flavia Cavalcanti

Alice Junior, de Gil Baroni | Foto: Beija Flor Filmes

Encounters:
Los conductos (coprodução França/Colômbia/Brasil), de Camilo Restrepo

Berlinale Talents, plataforma de talentos alinhava a nova geração de RealizadorXs.

Ao todo, 9 representantes do Brasil marcam presença na plataforma que é um Melting Pot no quesito Network: 255 participantes, 126 mulheres, 123 homens e 6 que preferiram não especificar o gênero de, ao todo, 86 países. Entre elXs:

1. Diana Almeida – Produtora (Duas Irenes/Berlinale 2017)
2. Fabiano Mixo que reside entre Rio e Berlim (Children Do Not Play, Seleção Oficial em Tribeca)
3. Jorge Neto – Ator (Os Carcereiros/Pico da Neblina)
4. Luciana Baseggio Cinematógrafa – Fundadora do DOP’s Brasil
5. Eloisa Lopez-Gomez, Distribuidora, atualmente vivendo nos EUA

Desafios!

A Berlinale edição 70 marca um novo ciclo: Não “somente” pelas novas nuances alinhavadas por Carlo Chatrian, novo diretor artístico, um obcecado e excelente conhecedor do cinema europeu. Também pela recém-descoberta sobre o envolvimento do fundador do festival, Alfred Bauer, no aparato da área cinematográfica alinhavada por Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda durante o nacional-socialismo.

A Berlinale precisa fazer uma faxina na própria história, se ajustar, além de se ver frente ao desafio com o público que se vê seduzido a ficar em casa e assistir às séries da Netflix ao invés de ir ao cinema e se deixar levar pela magia da história de tal forma, como no filme de Woody Allen A Rosa Púrpura do Cairo.

Também o cinema como um todo, como resistência e teimosia está desafiado, em tempos sombrios. O ex-diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, certa vez, declarou: “O cinema não possibilita saber o que está acontecendo no mundo”. Em tempos de dinâmicas políticas imprevisíveis e incontroláveis, essa tarefa se torna, cada vez mais, um desafio cada vez mais árduo.

Twitter: @FatimaRioBerlin | @CinemaBerlin
Instagram: @rioberlin2018
YouTube: AboutCinema

Fátima Lacerda

Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim e cobre o festival desde 1998. Formada em Letras no R.J e Gestão cultural na Universidade "Hanns Eisler", em Berlim é atuante nas áreas de Jornalismo além de curadora de mostras. Twitter: @FatimaRioBerlin | @CinemaBerlin
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