(Vaga Carne, BRA, 2019)
Experimental
Direção: Grace Passô, Ricardo Alves Jr.
Elenco: Grace Passô, Zora Santos, Dona Jandira, André Novais, Sabrina Rauta, Helio Ricardo, Valeria Aline Vila Real, Tásia d’Paula, Valeria Aissatu Sane, Ronaldo Coisa Nossa
Roteiro: Grace Passô
Duração: 50 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

No nada, uma voz ecoa. Ela é exatamente aquilo que se sabe dela: uma voz, que conta aos espectadores que nada veem como é ocupar espaços. Assim começa Vaga Carne, estreia da atriz Grace Passô na direção em parceria com Ricardo Alves Jr. O jogo com o público se estabelece nos primeiros momentos: ninguém na sala pode, literalmente, fazer nada além de escutar aquilo que é dito, e o modo como é dito busca um nível de intimidade contrário ao estranhamento no transformar, em palavras, sensações que são familiares àquele que recebe a mensagem.

Adaptação da premiada peça homônima de Grace Passô, a experiência atingida é o que mais se destaca no longa-metragem. Neste vagar por sensações e estranhezas, o que se escuta tem sentido e força. O explicar para aqueles que acham que tudo sabem, a intolerância com aquilo que é diferente. Há uma empáfia naquela voz que está em todos e, principalmente, levou ao lugar em que estamos hoje, social e politicamente falando.

O longa parte da identificação com a convivência de arrogâncias, em seres que desprezam a diferença e constróem certezas sem que exista uma prévia capacidade de olhar para o todo e para o outro. Num jogo de superioridade, o invasor se sente distinto, elevado, e o debate se esvai antes de acontecer. Do mesmo modo, transfere sua arrogância para além da tela e alcança a humanidade, em sua também incompetência para dialogar e na facilidade que tem para rechaçar o que é diferente.

Há ainda um outro lugar a ser alcançado, o do corpo objeto que, assim como uma gama de seres inanimados citados, é invadido. Aquela mulher que deixa de se manifestar depois de tomada pela voz alheia. O seguir automático à tomada do inesperado, a irrelevância de uma vida prévia, para si ou para os outros. Esta exposição traz o incômodo de realizar, mais uma vez, existências invisíveis.

Num outro lugar, há a modificação que só a interação é capaz de efetuar. Seres estão sempre sujeitos a alterações, superficiais e profundas. Nesse jogo, não é só o que se vê que muda, quem vê acompanha as modificações, como espectador ou como ser atingido pela mudança. Esse transpor recorrente de barreiras e alcance, levando uma mesma ação em tantos níveis, é o que Vaga Carne tem de mais precioso.

Confortáveis em um ambiente cênico conhecido e ousadas nas novas experimentações dos dispositivo cinematográfico, são marcantes as rupturas e impermanência de Grace Passô com as possibilidades vocais que se destacam num jogo que encontra em luzes pulsantes, imagens pouco claras e até na conformidade da interação com a plateia em cena. Aquilo que se vê não é o que se escuta, do mesmo modo que nem sempre é possível criar possibilidades visuais para aquilo que se vê.

É interessante como, em Vaga Carne, Grace Passô e Ricardo Alves Jr. conseguem transferir a experiência dentro da tela para a própria relação com o espectador. Ele, assim como aquela mulher, foi invadido por um conjunto de imagem e som sem que muito possa fazer para evitar tudo o que vem desta invasão. Esse transitar em linguagens e lugares de maneira tão orgânica, de criar uma nova realidade de interação tão profunda, impressiona e, ao mesmo tempo, transforma.

Um Grande Momento:
Futuro.

[22ª Mostra de Tiradentes]