Com Francisco Carbone

O Grande Circo Místico, filme de Cacá Diegues, foi anunciado hoje (11) como o filme que representará o Brasil nas etapas preliminares de escolha dos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2019. A definição, previsível, acontece a despeito das críticas negativas e fora das regras.

Por chegar no mesmo ano em que o cineasta é nomeado para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira de Nelson Pereira dos Santos, a escolha pode ser considerada como uma espécie de homenagem ao renomado cineasta, autor de obras inesquecíveis como Ganga Zumba, A Grande Cidade e Bye Bye Brasil. Porém, o filme escolhido está longe de ser uma unanimidade na crítica. Menos do que isso, embora tenha tido alguns poucos textos o enaltecendo, a maior parte dos críticos que assistiram à obra não gostou do que viu.

Após sua estreia no Festival de Cannes, o filme não aparece nada bem nas análises de veículos estrangeiros, como Hollywood Reporter (“100 anos de tolice”), Variety (“sem peso”) e Screen Daily (“simplesmente muito frágil para que se invista muito interesse”), entre outros. Algo importante de se levar em consideração sabendo-se que os indicados às vagas são escolhidos por gente lá fora.

Mas os brasileiros que estiveram na Riviera Francesa também não aprovaram o que viram. “O Grande Circo Místico sofre de uma indefinição conceitual grave. Pretende falar de magia, sem se aprofundar no universo fantástico (…) Pretende comover com dezenas de dramas pessoais, mas se recusa a desenvolver qualquer personagem.”, destaca Bruno Carmelo, em sua cobertura do festival francês para o Adoro Cinema.

A trajetória no Brasil ainda mal começou, mas também já conta com várias ressalvas da crítica local. Escolhido como o filme de abertura no Festival de Gramado, o longa mais desapontou do que agradou. O fato de O Grande Circo Místico ainda não ter sido visto pelo público é outro fator que depõe contra a escolha. Por que escolher um filme que não foi testado se ele está ao lado de vários concorrentes já bem sucedidos na percepção do público e da crítica?

Há aqui, ainda, uma incompatibilidade com as próprias regras definidas para a indicação: para ser elegível, entre outras coisas, o filme precisa ter estreado no circuito brasileiro entre outubro de 2017 e setembro de 2018. Com estreia ainda prevista para 15 de novembro, o filme, que estaria naturalmente fora da disputa, deve ficar em cartaz durante uma semana em Macaé para só muito depois chegar realmente ao circuito. A mesma estratégia foi utilizada ano retrasado pelo filme Pequeno Segredo, de David Schurmann. Sem muito sucesso, como se sabe.

Longe de desmerecer um grande realizador, como é Cacá Diegues, e mesmo percebendo o intuito de homenageá-lo, é complicado entender a indicação de um filme por qualquer outro motivo que não seja a sua qualidade técnica ou, vá lá, o seu apelo com o público. Algo que não faltava entre os outros 21 filmes que se inscreveram.

O sistema de escolha, que se mostra problemático desde a confusão com o filme secreto de Schurman, é político demais e ineficiente. A diversidade da comissão deveria ser maior, outros setores deveriam estar representados e o cinema na obra – e não na filmografia de seu realizador – deveria ser o aspecto mais relevante a se considerar. As regras, claro, também precisam ser seguidas, com filmes realmente vinculados à sua estreia no circuito.

Errando-se mais uma vez, e persistindo nesse erro, o grande circo nada místico do cinema brasileiro cada vez mais espera a possibilidade de estar no Oscar em categorias diversas da de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Porque essa mesmo, talvez só ano que vem.