Crítica | Streaming

O Paciente Perdido

Nuvens pesadas

(Le Patient, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Christophe Charrier
  • Roteiro: Christophe Charrier, Elodie Namer
  • Elenco: Txomin Vergez, Clotilde Hesme, Rebecca Williams, Matthieu Lucci, Alex Lawther, Audrey Dana, Stéphane Rideau, Raphaël Sergio, Baptiste Carrion-Weiss
  • Duração: 90 minutos

Tem uma aura tão pesada e incômoda em O Paciente Perdido, estreia de hoje da Netflix, um sentimento depressivo de derrota, que é difícil não sair contagiado da sessão. Há uma energia ruim que ronda a produção, carregada não apenas de mistério, mas de uma tristeza em cada personagem, que nos deixa pesados. Essa aura ruim é proposital, o filme trata de temas duros e nada frugais, é uma situação familiar que tanto na fantasia é carregada quanto pós-farsa, mas essa impressão tira do filme o prazer de estar em contato com aquela obra. Em determinado momento, uma remissão do que acontece em cena faz o filme retomar um ar saudável em sua atmosfera, ou ao menos refrigera os elementos, e aí conseguimos observar o quadro geral. 

Christophe Charrier é o diretor do igualmente denso Jonas, que invadiu há alguns anos o universo LGBTQIA+ com uma premissa que ia se mostrando cada vez menos feliz. O caminho é parecido aqui em O Paciente Perdido, um filme que não trata de sexualidade, nem de questões individuais afetivas – o que me parece um acerto. Thomas, seu protagonista, ficou três anos em coma depois de ter sua família chacinada, ocasião onde ele mesmo também enfrentou uma tentativa de homicídio, resultando no coma. Ao acordar ele não lembra de nada, só da irmã Laura, que desapareceu após o ataque. O filme não é apenas sobre o despertar desse cara, física e emocionalmente para uma realidade muito entristecida, como é a porta de entrada para o espectador rumo a esse universo. 

Como já dito, é preciso estar disposto a encarar uma jornada cheia de sentimentos ruins, que vão sendo distribuídos com parcimônia, sempre com a intenção de nos manter de sobreaviso. O Paciente Perdido ainda consegue se fazer dessa condição de seu protagonista, que não está no melhor momento das suas configurações, para inserir seu plot, que se pretende original e surpreendente; não é, nem uma coisa nem outra. Mas através dele é que a dramaturgia fica cada vez mais intensa e a dramaturgia se direciona a um momento de catarse, cuja elaboração é moldada por sua revelação final. Se a originalidade não é o forte do resultado, ao menos a dramaticidade é suficiente para nos fazer refletir a respeito de seu formato. 

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Tudo em O Paciente Perdido alude a algo que não está em cena. Os planos evocam um ar constantemente desconhecido, e o público segue na dúvida do que vê, enquanto se aproxima de uma força que puxa o filme sempre para baixo. Aos poucos essa dinâmica passa a ser questionada – o que estamos vendo de verdade é uma representação da realidade ou é a realidade? Afinal, o protagonista não entende o que aconteceu em sua totalidade, e a psicóloga que cuida dele o adverte sobre possíveis confusões que ele eventualmente fará, conforme for lembrando dos eventos. A partir daí, suas lembranças virão repletas de armadilhas que podem ou não indicar rumos desconhecidos de muitas searas – o que sabemos, o que achamos que sabemos, e o que verdadeiramente é. 

São cenários rachados e vazados, que permitem que a imaginação rasgue mais a memória de Thomas, tipos com propensão à violência, traumas que parecem maiores do que a vontade intrínseca individual, e um reflexo em outras pessoas que podem significar algo além do que a superfície mostra. Sem dúvida O Paciente Perdido consegue comunicar muito mais do que seu roteiro propusera, mas não é como se estivéssemos diante de uma obra cuja psicologia ultrapassa suas ambições. Acaba por ser um suspense de ambientação emocionalmente opressiva, que tenta traçar uma linha com o amor que recebemos de nossos entes, e o desamor também. Com uma bela entrega de Txomin Vergez, o filme consegue nos fazer abstrair daquela totalidade opressiva para uma reflexão a respeito da inadequação, do surgimento de doenças psicológicas, e do quanto isso pode ser adquirido pelo nosso entorno direto. 

Infelizmente, O Paciente Perdido não consegue dar conta dessa psicologia em seu roteiro. Adaptado de uma ‘graphic novel’, o roteiro também tem mão de Charrier mas não acerta a complexidade das situações. Um exemplo disso é, apesar do filme se passar na mentalidade de Thomas isso ser o acertado, mas sentimos falta do relevo que contemple a personalidade de seus pais. A narrativa soa vaga e falhada, e o filme parece com isso dar suporte somente a uma visão, o que soa no mínimo polêmico, e pouco inclusivo. O filme segue então um caminho tortuoso entre a sua natureza e o resultado de suas intenções, pouco concretizadas. 

Um grande momento

“você não pode ficar nesse quarto”

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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KAROLINA
KAROLINA
29/11/2022 23:18

Uma bosta
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