Crítica | Streaming

O Milagre

Faca amolada

(The Wonder, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sebastián Lelio
  • Roteiro: Emma Donoghue, Sebastián Lelio, Alice Birch
  • Elenco: Florence Pugh, Tom Burke, Niamh Algar, Kíla Lord Cassidy, Elaine Cassidy
  • Duração: 108 minutos

Antes de mais nada, quero esclarecer que isso aqui é uma mentira. É assim que O Milagre começa sua história, deixando bem evidente ao espectador que aquilo que ele vai assistir é uma criação, um teste para saber até onde vão os limites da construção ficcional. O novo longa de Sebastián Lelio busca seu próprio limite de convencimento, sua capacidade de borrar a realidade que ele mesmo escancarou, e o poder de envolvimento daquele que acompanha a trama, a crença no que é contado. Para expor a história da pequena Anna O’Donnell (Kíla Lord Cassidy) e sua devoção, olha especificamente para a fé e busca entender como ela funciona, provocando-a.

A dinâmica se divide em dois elementos que nos conectam diretamente à história: Kitty (Niamh Algar), a narradora, que tem seu papel no enredo, mas está ali para, além de conduzir e apresentar, lembrar a artificialidade, e Lib (Florence Pugh), uma das protagonistas. Cética, ela é a enfermeira contratada para acompanhar a menina Anna, que sobrevive sem comer há alguns meses. Ao lado de uma freira, com quem alterna os plantões, sua função é atestar ou não a santidade da garota, ou se sua capacidade de sobreviver sem comida é mesmo real.

O Milagre (2022)
Christopher Barr/Netflix

Jogo dado, passamos quase todo o primeiro terço inicial de O Milagre nos descolando do real apresentado, a despeito do quão elaborados sejam a ambientação de Grant Montgomery, desenhista de produção da série Peaky Blinder, ou os figurinos de Odile Dicks-Mireaux, de Brooklin e Noite Passada em Soho. Estamos numa comunidade rural em em meados dos anos 1800, mas a imagem do set em construção ainda está ali presente em nossa mente, mesmo que não esteja em tela. E até mesmo quando começa a se afastar, retorna na quebra da quarta parede. Em algum ponto isso vai deixar de acontecer, porque queremos acreditar, e não é isso a fé? A vontade de acreditar que às vezes supera a lógica e o conhecimento?

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Obviamente essa não é a mais aprofundada dissecação da questão e nem a mais filosófica análise compreensiva da crença, mas é muito interessante como a lógica se esvai a certo ponto, como o mágico das imagens construídas e a exposição a um ambiente pode tornar algo real, ou pelo menos dar a ele a aparência de real. Anna, assim como quem se contamina com a narrativa da menina santa, “vive uma verdade”. Lelio repete a dinâmica com aqueles que assistem ao filme. Em níveis diferentes, com impactos e efeitos diversos, há contextos que passam a fazer sentido dentro do todo. A certo ponto, os que manipulam sabem que todos creem que ela sobrevive sem se alimentar, do mesmo modo que o diretor tem certeza que ninguém mais lembra da maquinaria antes escancarada.

O Milagre (2022)
Christopher Barr/Netflix

A jovem protagonista, porém, está em uma outra esfera, mais profunda. Sua história é apavorante, muito comum dentro dessa nossa sociedade e, permanente, reproduz um padrão que não deixa de acontecer, encontrando na religião os piores caminhos para se esconder. É a fé ao encontro da vulnerabilidade, em seu lugar mais nocivo e perigoso. Por outro lado, Lib é aquela que vivencia as experiências, mas não deixa se envolver pelas imagens ou por aquilo que escuta. É como a que guarda a consciência e, assim, desespera-se com a cegueira e o delírio que vai tomando conta de todos.

Com uma fotografia estonteante de Ari Wegner (Ataque dos Cães, Zola e Lady Macbeth), que transita entre a solidão dos vastos campos irlandeses e a opressão do interior dos casebres escuros; e uma trilha grave de Matthew Herbert, parceiro constante do diretor, O Milagre é um thriller que vai se construindo na ansiedade e sem muitos alívios pelo caminho penoso que toma. As atuações da dupla Cassidy e Pugh são magnéticas e o modo como as duas personalidades se complementam e se transformam faz com que seja impossível se afastar da história.

O Milagre (2022)
Christopher Barr/Netflix

Há muita consciência ao trabalhar cada um desses elementos para que a ilusão não só se concretize como sempre, mas também se estabeleça como uma realização da base narrativa, como a crença que vira contexto e elemento. Para além de sua qualidade, da boa história contada e de toda a representação, porque isso também é fundamental para a o jogo proposto, em momentos de tanta manipulação da verdade, criação de inverdades e delírios de fé, como esse que vivemos hoje no mundo inteiro, O Milagre surge ainda com mais relevância.

Um grande momento
Eu seria Nan

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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