Crítica | Streaming

Good Night, Oppy

O descanso dos justos

(Good Night, Oppy, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Ryan White
  • Roteiro: Ryan White, Helen Kearns
  • Duração: 101 minutos

Sim, é possível se emocionar com robôs. Essa lição aprendemos há 14 anos atrás, quando a Pixar lançou um de seus maiores clássicos, Wall*E, um filme que mudou nossas ideias a respeito do quanto poderíamos nos envolver com máquinas, emocionalmente falando. É essa uma das bases da discussão em torno de Good Night, Oppy, estreia desta semana na Amazon Prime Video. Mais um os filmes que têm chances nas categorias de documentário para o próximo Oscar (assim como os já analisados All the Beauty and the Bloodshed, O Último Navio Negreiro, O Legado de Sidney Poitier e O Território), o longa impressiona em muitos aspectos. O principal deles é o fato de conseguir nos transportar para um universo tão abstrato e fora da realidade quanto o da corrida espacial e seus incompreensíveis motivos – até conhecermos cada um dos criadores e seus espécimes. 

Ao menos para o público leigo (ou seria melhor dizer ‘extremamente leigo’?), os motivos pelo qual ainda se gasta bilhões de dólares para investigar rastros de vida fora do planeta permanecem desconhecidos, quando não um disparate. Ryan White, o diretor e roteirista de Good Night, Oppy sabe disso e não se furta em fazer tal provocação, com os personagens de seu filme se dispondo a um posicionamento diante de tais opiniões rasas. Sim, muito do que podemos estar destruindo e/ou desperdiçando na Terra hoje poderia ser solucionado através de uma série de investigações interplanetárias, não é apenas uma aventura de nerds. O filme precisa dessas informações para que também justifique ao espectador o fato de ficar na frente da tela por mais de uma hora e meia um documentário que se dispõe a essa discussão.

White consegue criar uma simbiose complexa que une os profissionais que filma, as criaturas que essas pessoas criaram e que eles tratam como filhos, e o público final, que poderia facilmente ficar estupefato com tamanha bizarrice. Através de canções clássicas, que vão dos Beatles ao Wham!, passando por ABBA e B52’s, Good Night, Oppy cativa lentamente, como se fôssemos desafiados a sermos dobrados por aquelas falas e aqueles seres. Sem um visual humanóide que poderia nos fazer apegar mais rápido, o que temos é provavelmente o protótipo do que inspirou a Pixar para o visual do Wall*E, e agradeçam a eles, White. Graças ao que a animação nos trouxe, os gêmeos Spirit e Opportunity tem esforço menor para que os enxerguemos como o que são, trabalhadores braçais. 

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Good Night Oppy
Amazon Prime Video

Good Night, Oppy também conta com uma recriação visual de muitíssimo bom gosto, com efeitos tão instigantes quanto das melhores produções hollywoodianas possíveis. A jornada dos robôs pela superfície de Marte durante mais de uma década, assim como a viagem deles até lá e o encontro com uma tempestade solar, são recriações muito impressionantes e que deveriam enquadrar o filme em qualquer disputa séria da categoria. São momentos que remetem tanto às mais emocionantes aventuras quanto às mais delicadas histórias de ficção científica. É um trabalho cuidadoso, que não esquece que um projeto cinematográfico acima de tudo precisa da compra de sua ideia pelo público; através de seus elementos, o filme passa nesse teste com louvor. 

Só falta a coragem que não faltou a Wall*E aos criadores de Good Night, Oppy, de uma maneira coletiva. Logo na sequência de abertura do filme, somos flagrados com os cientistas afirmando que Oppy teria adquirido vida própria, e vemos então o robozinho estático diante do perigo, que ele descobre rapidamente se tratar de sua sombra projetada nas areias de Marte. O próprio filme entrega um caráter existencialista a produção que fazia muito sentido de ser explorado, já que os robôs são tratados como profissionais por quem os criou. Como então resistir a tentação de não tratar sua curta duração de vida, que acaba sendo esticada por muito mais do que os 90 dias previstos, como algo reflexivo e de ordem existencial? O filme acaba por perder muitos desdobramentos filosóficos ao equilibrar seu foco entre o espaço e a Terra. 

Spirit e Opportunity perdem o protagonismo (e possíveis toques surreais) quando o filme resolve ouvir, além da conta, os responsáveis pela sua viagem. Ainda que seja uma visão também curiosa sobre todo esse processo, dando a dramaticidade que o filme igualmente precisava, Good Night, Oppy dessa forma deixa para trás a chance de transcender suas ambições para alcançar algo de elevação superior. Preferiu transformar-se em outra coisa, uma ode à amizade e ao desapego, por mais duro que seja; igualmente válido, mas definitivamente menos desafiador. 

Um grande momento

A selfie

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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