Crítica | Streaming

O Páramo

Fuga da realidade

(El páramo, ESP, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: David Casademunt
  • Roteiro: David Casademunt, Martí Lucas, Fran Menchón
  • Elenco: Inma Cuesta, Roberto Álamo, Alejandra Howard, Asier Flores
  • Duração: 92 minutos

Isolar-se. A abertura de O Páramo destaca a palavra dentro de uma frase de Federico Garcia Lorca, e fica claro sobre como atual é o conto que estreia hoje na Netflix, mas também como a dubiedade joga com a expressão o tempo todo, dentro da narrativa e na nossa realidade atual. Afinal, uma boa história sobrenatural reflete sobre o tempo presente sem deixar de organizar os seus próprios parâmetros, em contexto adequado e refletindo sobre suas camadas de maneira amplificada. Dentro da obra e dos seus signos particulares tem camadas, assim como na observação sobre o contemporâneo também estão servidas análises aprofundadas sobre o estado das coisas, além das observações universais, prementes a qualquer tempo.

O longa de estreia de David Casademunt é, também, uma produção ao mesmo tempo enxuta e requintada, com um trabalho fotográfico formidável, que realça o que o gênero pode oferecer de melhor ao isolar seu exíguo elenco (apenas três personagens) em um espaço igualmente diminuto – uma casa no meio do absoluto nada. O trabalho de Isaac Vila é essencial para conseguir essa dualidade de esforços, e sua conexão com o diretor funciona porque ambos se potencializam. Oferecer ao espectador uma experiência que aluda ao microscópico de relações mesmo refém de um horizonte alinhado à vastidão. É a tradição de filmar o que há de mais sensorial e abrangente, mas reconfigurando seus elementos até que a eles sejam adquiridos uma realidade oposta, reduzida.

O Páramo
Lander Larrañaga/NetflixETFLIX

A iluminação dos espaços se dá de maneira igualmente impressionante, porque é essa chave que corrobora com o mistério do filme, da sua identidade visual fantasmagórica. Quando mãe e filho se encontram enfim sozinhos e todas as soluções visuais passam a depender do que o espectador imagina ser visto, são as sombras, as sugestões e os vultos que decidem o tamanho de nossa conexão com o roteiro de O Páramo, que se expande de um universo concreto da guerra para um cada vez mais abstrato, envolvendo traumas recentes e antigos, tendo a infância como porta de entrada. São de dois polos infantis que nascem as ligações com o mundo da fantasia, que reflete o medo e a aceitação para com a nossa realidade, esteja ela em qual grau de dificuldade estiver.

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Ao mesmo tempo em que o isolamento é uma necessidade do núcleo do filme, também existe por trás de seus personagens um desejo latente de liberdade, de ampliação de suas fronteiras, que são delimitadas pelo medo. Não apenas o sentimento concreto que o filme aborda, aquele que os refugiou em sua ilha de madeira e terra, mas também aqueles possíveis temores de todo o tempo – o da responsabilidade, o da maternidade, o de crescer. Um homem quer revalidar suas obrigações a outrem; uma mulher quer destituir-se das obrigatoriedades maternas; uma criança se exime com o tempo futuro fincando os pés na infância. Esse trio será constantemente confrontado com avessos de suas verdades inconfessadas.

O Páramo
Lander Larrañaga/Netflix

Não se trata de um filme absolutamente livre de ponderações contrárias, tais como as demonstrações do que tem de único. Trata-se de uma produção bastante acima da média esteticamente, mas narrativamente seu caminho já foi visto em outras paragens. Isso não delimita o envolvimento do espectador, mas ao mesmo tempo tira do filme seu caráter desbravador, já que estamos falando de um roteiro que não tenta sair de sua zona mais conhecida. O belo trio de atores (em especial Roberto Alamo, em uma performance comovente como um homem desprovido de inocência) consegue promover interesse genuíno à produção, mantendo o clima de apreensão durante toda a duração.

A estreia de Casademunt, no entanto, é um belo cartão de visitas de um estreante, servindo como aperitivo para futuras apostas. Aliás, essa é uma característica da Netflix ao redor do mundo, servir como base de reconhecimento para estreantes com inegável talento, como aqui. As imagens produzidas, cujo bom gosto estético se encontra com a possibilidade de criação da imaginação de cada um, são uma prova de que O Páramo consegue surtir efeito dentro do que era sua esfera, o cinema de proposta ilusória, com base no artificial. Nesse sentido, o gol foi marcado com alguma facilidade.

Um grande momento
Salvador conta de sua irmã

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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