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O Festival do Amor

Pendurado no cinema

(Rifkin's Festival, ESP, EUA, ITA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Woody Allen
  • Roteiro: Woody Allen
  • Elenco: Wallace Shawn, Gina Gershon, Louis Garrel, Elena Anaya, Douglas McGrath, Ben Temple, Steve Guttenberg, Tammy Blanchard, Sergi López, Christoph Waltz
  • Duração: 88 minutos

Já faz um tempo que tentam dizer que Woody Allen não empolga mais como antes. Para alguns, seu último grande filme foi Blue Jasmine, para outros, a queda começou com Roda Gigante e se confirmou em Um Dia de Chuva em Nova York. Fato é que O Festival do Amor definitivamente não demonstra um bom momento. Dizem que é porque a fórmula não se renova, mas não é isso. Aqui, há muita coisa interessante, principalmente para nós que somos críticos e amantes de cinema, mas é como se o longa não conseguisse de fato envolver, falta apego aos personagens, ao texto, tudo fica no meio do caminho. Não chega a ser superficial, mas também não é profundo. Porém, o mais grave, é equivocado.

Mort Rifkin, o protagonista e alterego do diretor, desta vez vivido por Wallace Shawn (de A Princesa Prometida), é um escritor que vai acompanhar a esposa Sue (Gina Gershon, de Showgirls), uma assessora de imprensa, no Festival de San Sebastian. Lá relembra seu passado como professor de cinema e sua relação com os grandes clássicos europeus, conhece a cardiologista Jo (Elena Anaya), por quem se encanta, e vê sua companheira se apaixonar por um de seus assessorados, Phillipe (Louis Garrel), um arrogante diretor de cinema. Tudo é narrado em uma sessão de terapia, com offs que se intercalam com os eventos e alguns sonhos em preto e branco que invadem a narrativa.

O Festival do Amor
Divulgação

Tudo é bem tradicional e adequado ao universo estabelecido pelo diretor, que faz de O Festival do Amor uma espécie de psicanálise da sua relação com seu ofício, sem deixar de lado a família e os pais, obviamente, e sua homenagem ao cinema. A Sétima Arte está apresentada de todas as formas em tela, seja pelo contato cinéfilo que vem com os festivais, desde o mais comercial e aleatório nos corredores, ao mais interessante e profundo, nas conversas pós e entre as exibições; até a própria relação do diretor com os filmes que fazem parte da sua vida e são os que voltam em seus sonhos trazendo nomes como Welles, Fellini, Truffaut, Godard e Buñuel em paródias de cenas icônicas que remetem a acontecimentos e diálogos de filmes do próprio Allen.

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Se a brincadeira com o cinema é divertida e faz o filme despertar alguma curiosidade, a trama de Wallace acordado em San Sebastian não é tão envolvente e carece de ritmo. Ainda que sua cinefilia esteja ali para manter a atenção, sua intencional – espera-se – postura de velho babão e suas falas ultrapassadas (a parte da bíblia é inacreditável) vão afastado do filme, assim como a atuação exagerada de Shawn, que acredita precisar fazer muito para chegar num lugar onde já está. As cenas dele meio deslumbrado meio conquistador no consultório são tão exageradas que causam agonia, pelo sobretom da atuação e não pelo nojo natural da situação.

O Festival do Amor
Divulgação

Se essa falta de conexão se dá no principal do filme, o que vem como acessório já chega comprometido, ainda que tenha elementos mais interessantes. É o caso do casamento conturbado de Jo com o pintor, da fogosa relação que se estabelece entre Sue e Philippe e da competição de egos entre este e o protagonista. São lampejos de humor em meio a desconexões e quebras de ritmo, faíscas que vem enquanto aguardamos pelo próximo sonho ou devaneio.

Mesmo que tenha isso e aquilo, é impossível não notar o que O Festival do Amor seja talvez o mais misógino de todos os filmes de Allen. O modo como as personagens mulheres são retratadas, como as relações se dão, é tão ultrapassado que chega a ser insustentável. São imagens da cabeça de Mort, um homem que parou no tempo. É ele quem conta a história, ele quem as vê e as descreve, e talvez isso se quebre na sacudida de cabeça após o desligar do telefone de Jo, ainda assim imaginada, mas talvez um saudável lapso de consciência.

Segurando no cinema para não despencar, há uma crise detectada ali e ela está numa frase no final do filme que não revelarei aqui para não estragar a surpresa e nem ser radical demais, mas é importante que se olhe para isso. Woody Allen olhou, vamos ver o que vai fazer com isso.

Um grande momento
Bongô

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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