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Roda do Destino

Acaso, fantasia e sorte

(偶然と想像, JAP, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ryûsuke Hamaguchi
  • Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi
  • Elenco: Kotone Furukawa, Ayumu Nakajima, Hyunri, Kiyohiko Shibukawa, Katsuki Mori, Shouma Kai, Fusako Urabe, Aoba Kawai
  • Duração: 121 minutos

Não é nenhum segredo que, por mais que a gente tente fugir da verdade, somos seres solitários. Seres que buscam de alguma maneira apaziguar o peso dessa solidão, nessa fuga de uma condição primeira não aceita. E são os encontros o primeiro refúgio, a boia de salvação, o esconderijo perfeito. Ryûsuke Hamaguchi é alguém que confronta o ser humano com a solidão e a ilusão do encontro, e isso é muito perceptível em sua coletânea Roda do Destino, um filme que à primeira vista fala de escolha, mas transita entre caminhos de personagens sós que se cruzam.

“Para nós, que sempre mantemos os outros afastados, o cruzamento de caminhos é especial”

É possível identificar sua história observando histórias completamente diferentes? O cinema prova que sim. Mas é possível um mesmo filme que junta narrativas com elementos tão distintos, unidos pela trilha, comportar uma mesma identificação? Hamaguchi tem essa habilidade de abstração. Personagens, idades, tempos diferentes se adequam a uma realidade, comportam uma existência para além daquelas. De outros passados e suas paixões, conexões se estabelecem. De encontros presentes e seus relatos, deslumbrados ou arrependidos, identificações se concretizam. Estamos ali.

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A Roda da Fortuna
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Da paixão

Partindo da beleza, há algo de muito externo e muito físico no primeiro capítulo, ainda que nada que esteja em um deles não esteja no outro. Aqui, passado e presente se encontram em polos distintos. Há o deslumbre da paixão, com um longo dia de descobertas e carícias “orais”, o momento mágico; e a angústia da perda, com o arrependimento e talvez uma ponta de inveja por não ter mais aquilo que se escuta. Nesse jogo de escolhas, outros movimentos são feitos, e há a busca pelo passado. Hamaguchi brinca com o espectador surpreendendo-o com reviravoltas inesperadas e diálogos divertidos, que se apoiam na irreverência e sinceridade de Meiko (Kotone Furukawa).

Ela, em contraposição a Kazuaki (Ayumu Nakajima) e Tsugumi (Hyunri), mais contidos e tímidos, iguais em um novo encontro ainda de futuro incerto, é como o lampejo que falta. De certo modo, é o que eles não mais procuram. Por outro lado, são a imagem da estabilidade e calma que ela teme perder, tanto a melhor amiga quanto o melhor namorado. Imagem, não realidade. A que só surge quando provocada. E Roda do Destino brinca com o acaso. Um “Ela é a menina de quem você estava falando?” interrompe a ação que mudaria tudo e uma projeção demarca uma nova escolha. A vida segue.

Roda da Fortuna
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Do desejo

Num universo muito mais carnal, o segundo capítulo se estabelece entre portas fechadas e portas abertas, aqueles que não se escondem nunca e os que estão sempre ocultos, amantes e públicos. O físico que estava no clima gerado pelas palavras trocadas por Kazuaki e Tsugumi no primeiro encontro e na roupa suja lavada pelo ex-casal que se ressentia da falta de sexo, aqui é mais evidente. Nao (Katsuki Mori) assume que precisa de sexo, e talvez isso seja um problema para a sociedade em que vive, mas ela não deixa de ter suas tarde com o imaturo e ressentido Sasaki (Shouma Kai). É o desejo e a vontade de manter sua aventura que a leva a um novo encontro, com o velho conhecido e admirado professor Segawa (Kiyohiko Shibukawa).

Das portas fechadas às portas abertas, encontra a maturidade e um outro tipo de desejo, em palavras repetidas, que não são trocadas, saem de sua boca, mas são daquele que as ouve. Em Roda do Destino, Hamaguchi cria um jogo interessante de reconexão com o próprio desejo, sentir novamente a mesma emoção de uma forma diferente, o seu pelo outro. Há uma tensão natural no ato — é tabu falar sobre isso, afinal de contas — e há provocação na alteração do ambiente, a porta que se fecha e depois se abre novamente. Mas, há muita sutileza também, pois o diretor faz com que tudo se intensifique em pequenos gestos. Segawa, diferente de Sasaki, é a contenção e sua perturbação vem em detalhes, na troca da cadeira e leve arquear do corpo, na fala lenta e contida.

O encontro transforma, cria suas imagens, e pode estabelecer novos caminhos, mas “o destino não é culpa de ninguém” e o acaso chega numa outra forma. E o presente sempre vem para relembrar o passado, trazer de volta à lembrança passos que talvez não deveriam ter sido dados e transformaram uma história criando outras.

Roda da Fortuna
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Da frustração

O que seria pior, o fazer ou o nunca ter feito? A paixão e o desejo são motores para eventos que se repetem em cruzamentos durante toda a vida. Começam cedo e terminam tarde. Aquela pessoa especial, que ocupa tanto tempo no pensamento e de quem não se consegue ficar longe. Pontos que marcam a existência que segue independentemente deles, mas que por vezes, ou muitas vezes, voltam a doer. Intensa em Kazuaki, nova em Tsugumi, indecisa em Meiko, contida em Segawa, arrependida em Nao e muito dolorida em Moka (Fusako Urabe), que carrega uma paixão adolescente nunca realizada e que ela tenta resgatar — a melhor palavra seria vislumbrar — num encontro de turma desses que acontecem muito anos depois.

É o equívoco que a leva até Nana (Aoba Kawai) ou a vontade, aquela muito grande, de reencontrar alguém, de sentir novamente, de reviver o passado. Um desejo compartilhado. Roda do Destino e sua vontade de falar de almas e similaridades traz o igual e é aqui que a solidão de todos os oito personagens se faz mais evidente, assim como a necessidade do encontro, da troca, do sentir-se menos sozinho em um mundo tão enorme. Hamaguchi não abandona nenhum dos temas, há paixão e há desejo, seja nas histórias passadas, a narrada por Moka e a revelada por uma carta secreta encontrada. “As coisas que você me disse continuam até agora, sua existência é minha âncora até hoje”. A dinâmica que se estabelece entre os corpos do presente fazem o imaginário mais uma vez elaborar possibilidades que o acaso vem interromper.

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Da vida

Roda do Destino é um filme simples, sem grandes elaborações estéticas, mas ao mesmo tempo muito refinado. O modo como trata temas pessoais de maneira tão próxima e faz com que eles se repitam sem tornar-se cansativo ou evidente é fantástico. Transitar entre o humano de maneira tão sutil é sempre algo que merece uma atenção especial e Hamaguchi, a cada novo filme, confirma sua habilidade em fazer isso. Aqui, nessas três histórias particulares, de oito pessoas específicas, está a vida e os nossos momentos. Está o jogo de paixões, desejos e frustrações, encontros, imagens e ilusões, que todos jogamos inconsciente e inescapavelmente, é o que move e marca a vida. Nele, há escolha e acaso, talvez haja sorte, mas não há eternidade. Na fuga momentânea da solidão, é o que existe, fica e o que faz valer.

Um grande momento
“Você já fez sua escolha?”

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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