A segunda temporada de Treta abandona a raiva explosiva da estrada para mergulhar em outro tipo de violência: a que nasce do dinheiro, do ressentimento silencioso e das relações atravessadas por poder. Durante coletiva virtual, o criador Lee Sung Jin, ao lado de Oscar Isaac, Carey Mulligan e Charles Melton, falou sobre o novo ciclo da antologia da Netflix, agora ambientado no universo sufocante de um clube de elite em Montecito.
Sung Jin contou que não pretendia continuar a série. O fim da primeira temporada havia sido pensado como encerramento definitivo. “A Netflix até me disse que eu não precisava fazer uma segunda temporada se não tivesse algo muito forte para dizer.” A ideia só voltou depois de um episódio real vivido em seu bairro. O criador ouviu uma discussão intensa entre um casal e percebeu que as reações mudavam completamente dependendo da geração com quem conversava. “Os mais jovens perguntavam se alguém tinha chamado a polícia. Já meus amigos da geração X diziam apenas: ‘grande coisa'” A partir dessa diferença de percepção, surgiu o novo conflito da série.
O ambiente escolhido foi um clube frequentado por milionários mais velhos enquanto funcionários millennials e geração Z tentam sobreviver ao redor deles. Sung Jin descreveu o espaço como “um microcosmo perfeito da sociedade”. O criador de Treta contou que passou um período hospedado na casa de um amigo bilionário em Montecito e ficou fascinado pela dinâmica daquele universo. “Você olha o preço da associação e pensa que é um absurdo. Depois usa por uma semana e começa a entender.” Para ele, o sentimento central da temporada nasce justamente desse mecanismo de adaptação ao privilégio. “Não importa o quanto aquelas pessoas trabalhem, elas jamais serão membros daquele lugar.”
Em cena
Oscar Isaac explicou que entrou no projeto depois de longas conversas com Sung Jin. “Foram horas de Zoom falando sobre vida, religião, imigração, vergonha, desejo.” O ator contou que se reconheceu imediatamente no universo emocional de Treta ao assistir a primeira temporada. Citou especialmente a cena da igreja evangélica envolvendo o personagem de Steven Yeun. “Aquilo me pegou num lugar muito pessoal. Pensei: esse cara conhece minha vida?”
A relação entre Josh e Lindsay, personagens de Isaac e Carey Mulligan, foi construída sobre essa intimidade emocional acumulada ao longo dos anos. Os dois já haviam trabalhado juntos em Drive e Inside Llewyn Davis, mas nunca com tanto espaço para desenvolver uma parceria. “Nós crescemos juntos de certa forma”, disse Oscar. “Nos conhecemos muito jovens, depois nos reencontramos quando estávamos começando famílias, e agora chegamos aqui carregando toda essa história.” Segundo ele, essa confiança facilitou na hora de construir cenas extremamente agressivas.
Carey Mulligan definiu o processo como uma experiência quase teatral. “Quando começamos a filmar, parecia que já estávamos encenando uma peça há meses.” A atriz destacou a naturalidade do parceiro de cena. “Oscar não parece estar atuando. Ele simplesmente existe dentro da situação.” Lindsay, sua personagem, foi construída a partir de um sentimento profundo de inadequação. Mulligan a descreveu como alguém sem autoestima, sem direção e sem qualquer senso real de pertencimento. “Ela tem uma vida muito pequena. Um casamento ruim, poucos vínculos, nenhuma identidade própria.” O pouco poder que encontra surge justamente da manipulação. “Quando percebe que pode controlar minimamente alguém, aquilo vira quase uma descarga de adrenalina.”
Charles Melton falou sobre como a série incorporou experiências pessoais à construção de Austin. O ator revelou que compartilhou com Sung Jin episódios da infância em que era frequentemente confundido com latino, apesar de se identificar como coreano-americano. A fala acabou entrando diretamente no roteiro. “O Sonny absorve tudo. Histórias, traumas, detalhes pequenos. Ele mistura tudo isso e transforma na linguagem da série.” Melton também comentou o retorno à Coreia para as filmagens. “Foi uma espécie de volta para casa. Cresci lá durante parte da infância e aquilo reacendeu muitas coisas em mim.”
Cálculo e escuta
A preparação do elenco passou por um processo extremamente detalhado. Oscar Isaac contou que recebeu documentos completos sobre a trajetória dos personagens: escolas frequentadas, evolução financeira, empregos, hábitos, tudo minuciosamente pensado. “Nunca trabalhei com alguém que tivesse tanta informação e, ao mesmo tempo, tanta abertura para mudar tudo durante o processo.” Ele explicou que Josh nem sequer havia sido escrito originalmente como um personagem latino. A identidade foi sendo construída junto ao ator.
Charles Melton lembrou um episódio específico para ilustrar o nível de precisão de Sung Jin. Em uma cena envolvendo drogas, o diretor queria ajustar apenas o subtexto emocional de uma frase. “Ele me explicou a situação como se eu estivesse conhecendo a família da namorada pela primeira vez e precisasse aceitar uma comida horrível para parecer educado.” Melton caiu na gargalhada ao lembrar da especificidade da orientação. “Era tão preciso que imediatamente tudo fazia sentido.”
A segunda temporada de Treta também amplia o comentário social presente na série. Sung Jin afirmou que é impossível escrever algo honesto em 2026 sem abordar classe social. “O dinheiro atravessa todas as relações humanas agora.” O criador comentou que a experiência de circular pela elite econômica coreana acabou influenciando diretamente a criação da Chairwoman Park. “Achei que alguns comportamentos seriam exagerados demais, mas então as notícias começaram a provar o contrário.”
A música
A trilha sonora acompanha o desequilíbrio emocional constante. Sung Jin explicou que a série é difícil de musicar porque muda de tom dentro da mesma cena. O trabalho com Finneas O’Connell nasceu da ideia de transformar Josh em um homem preso a nostalgias millennials. “Originalmente ele tocava folk acústico, mas percebemos que Oscar já havia feito isso perfeitamente em Inside Llewyn Davis.” A solução encontrada foi um sintetizador analógico e uma estética sonora inspirada em eletrônica dos anos 1980. “A ideia de um homem de quarenta anos sozinho na casa de fundos mexendo num Minimoog nos pareceu triste e engraçada ao mesmo tempo.”
Oscar levou a ideia a sério demais. “Ele quis aprender tudo sobre o instrumento”, contou Sung Jin, rindo. “Ficou bom demais.” Aos poucos, porém, a trilha abandona a ironia e se torna emocionalmente devastadora, especialmente nos episódios finais.
Samsara
Questionado sobre o principal tema da temporada, Sung Jin resumiu tudo em uma palavra: samsara. O conceito budista ligado ao ciclo contínuo de sofrimento, desejo, vida e morte atravessa toda a narrativa. “A série fala sobre pessoas presas em padrões que continuam se repetindo.” Oscar Isaac disse esperar que o público consiga reconhecer parte de si naquelas atitudes destrutivas. “Talvez olhar para essas pessoas horríveis e ainda sentir compaixão por elas.”
Charles Melton preferiu encerrar falando sobre escolhas. “Existe bondade em todo mundo”, afirmou. “Mas chega um momento em que você precisa decidir entre o que é certo e o que parece melhor para você.” Depois de alguns segundos pensando, voltou à palavra usada por Sung Jin no começo da resposta: “Samsara.”
A segunda temporada de Treta está disponível na Netflix.


