Críticas

O Preço da Verdade – Dark Waters

(Dark Waters, EUA, 2019)
Drama
Direção: Todd Haynes
Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Pullman, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, William Jackson Harper, Louisa Krause, Kevin Crowley, Bruce Cromer, Denise Dal Vera
Roteiro: Todd Haynes
Duração: 126 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Todd Haynes é um diretor tão inventivo, tão visualmente instigante, que causa estranheza o protocolar O Preço da Verdade – Dark Waters. O filme conta a história do advogado Robert Billot, o maior inimigo da DuPont, em sua jornada para comprovar a contaminação da água e de diversas pessoas pela empresa. Quadrado, o longa segue a formatação de tantos outros de investigação judicial.

A escolha não é sem motivo e visa evidenciar a terrível história de um experimento levado a cabo que, criminosamente, colocou em risco a vida de milhares e até hoje tem sua substância presente no sangue de 99% da população mundial. Embora o foco esteja no advogado, o filme funciona como uma denúncia para os desmandos de um mundo capitalista e neoliberal, onde a auto-regulação permite acontecimentos do tipo.

Para chegar até aí, O Preço da Verdade – Dark Waters traça a trajetória do advogado por todos os caminhos tortuosos de alguém que tenta processar um dos gigantes da indústria americana, com análises de documentos, tomada de testemunhos, visitas de campo e todos os trâmites tradicionais do gênero. Entre isso, cenas de escritório – com um ótima reunião – e confraternizações de advogados, Haynes tenta humanizar o personagem com passagens familiares.

Quem dá vida a Billot é Mark Ruffalo em uma atuação bastante irregular. Perdido em trejeitos que não consegue manter, o ator até tem os seus momentos, mas a falta de equilíbrio é muito perceptível. O mesmo se pode dizer de algumas atuações satélites, como as de Bill Pullman e Bill Camp. Tim Robbins e Anne Hathaway fazem um bom trabalho com aquilo que tem nas mãos.

Isso porque o roteiro de Mario Correa e Matthew Michael Carnahan (inspirado em artigo de Nathaniel Rich) é bastante inchado, com uma grande quantidade de eventos e personagens, sem nem sempre tempo e espaço para todos eles. Assim, muitos precisam fazer aquilo que dá com o pouco que têm.

E o filme segue o ritmo mais tradicional possível, com direito até a cartelas pretas para indicar o passar do tempo, mas sabe que pode confiar em sua história. À medida que as descobertas sobre o PFOA vão acontecendo na tela, realizações sobre hábitos cotidianos – a DuPont vendeu produtos ao mundo todo, como o Teflon – demonstram o alcance do problema, chegando, inclusive o espectador.

As jogadas jurídicas para fugir da responsabilidade e a inação do Estado são retratados para causar desprezo e alcançar o principal objetivo do filme: denunciar a corrupção e perpetuação de políticas benéficas às empresas mas nocivas à população. Vide a cenografia e a montagem do depoimento dissimulado do diretor da DuPont a Billot, ou a marcação de cena no acordo com Wilbur Tennant.

O Preço da Verdade – Dark Waters tem uma excelente história, que se basta por si mesma. Como cinema, falta ousadia e sobra vontade de trazer para um único lugar muitas informações que não acrescentam tanto à trama. Haynes poderia ter ido muito mais longe se não estivesse tão preocupado com isso. E, como sabemos, faria muito melhor.

Um Grande Momento:
“É por isso que as pessoas odeiam advogados.”

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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