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Modo de Produção

(Modo de Produção, BRA, 2017)
Documentário
Direção: Dea Ferraz
Roteiro: Dea Ferraz, Ernesto de Carvalho
Duração: 75 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

“A coisa que mais atrapalha o Brasil”. É assim que o atual presidente Jair Bolsonaro se refere aos sindicatos. Definidos como seus inimigos, eles foram alvos de uma medida provisória (MP 837/19) que estipulava para a contribuição sindical a autorização individual obrigatória e o pagamento via boleto, que acabou caducando, e estão na mira do Grupo de Altos Estudos do Trabalho (Gaet), aquele que quer implementar a carteira de trabalho verde amarela e acabar com a unicidade sindical.

É neste atual cenário político que Dea Ferraz lança o seu documentário Modo de Produção, cujo personagem principal é um sindicato, o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Ipojuca. O documentário assume o lugar de observador. Explora o espaço, que se enche aos poucos, e acompanha as conversas entre os trabalhadores e os representantes do sindicato. São trabalhadores que passam horas no campo cortando, cobrindo, transportando e queimando cana de açúcar, ganhando um salário insignificante, muitas vezes sem direito a férias, adicional de insalubridade e aposentadoria.

As cenas na pequena sala de apoio jurídico exibem conversas de pessoas que pouco sabem sobre seus direitos e nada entendem da burocracia necessária. A noção de exploração por parte dos empregadores também é muito vaga, quando demonstram que tudo o que relatam faz parte do habitual de suas vidas. Ferraz substitui as entrevistas pela captação das conversas, lembrando Frederick Wiseman na forma, mas apresenta uma dinâmica que nem sempre é tão eficaz pela velocidade com que expõe cada um dos trabalhadores.

Ainda assim, o que se vê é um retrato significativo do modelo de trabalho adotado pelo capitalismo. São pessoas tratadas como menos humanas, que encontram naquele espaço um mínimo de atenção para entender a que situação estão expostas e o que têm direito a conseguir. Algo muito distante da realidade da classe média que aceita essa política anti-trabalhador, diria até incompreensível para ela.

E o interessante de Modo de Produção é que seu retrato não diz respeito apenas ao desrespeito atual ao trabalhador, mas fala do quadro geral, da aceitação de um quadro neoliberal que oprime e sempre oprimiu. Neste governo, no passado e até nos anteriores, que claramente olharam para essa população com mais atenção, mas sem nunca mudar esse quadro de exploração.

Mais interessante é, nesse voltar no tempo, reparar no personagem principal do documentário, o próprio sindicato e na formatação que esses corpos assumiram com o Partido dos Trabalhadores no poder. A importância dos sindicatos é inegável, mas sempre houve ajustes a serem feitos, principalmente neste período. E é aí que o documentário de Ferraz traz aquilo que tem de mais interessante, quando abandona a sala de acompanhamento jurídico e foca no lado social.

Há uma coisa na união daqueles corpos traduzida nas conversas com a assistente social que não pode ser substituída e que consiste na verdadeira força de qualquer associação do tipo. São temas básicos, que falam do cotidiano e do poder de comunhão, do estar e fazer juntos. Se o lobby e as conversas diretas com o empregador acabaram se tornando mais visíveis, o sentido de união – que sempre deu potência a movimentos – nunca poderia ter deixado de ser o mais importante, mas que bom que ainda está ali.

Apesar de irregular e de apostar em cartelas que o enfraquecem, Modo de Produção é um filme interessante por trazer uma realidade distante de parte dos brasileiros e mostrar que o sindicato exerce mais de uma função, sendo estritamente necessário para muitos. Atrapalhar, só para aqueles que não entendem as necessidades do povo brasileiro como um todo e vivem fechados em um mundo irreal, onde a diferença de classes e a exploração não existem. Ou talvez seja exatamente isso que eles querem que continue existindo.

Um Grande Momento:
As conversas com a assistente social.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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