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Os Odiados do Casamento

Um clichê, e nada mais

(The People we Hate at the Wedding, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Claire Scanlon
  • Roteiro: Wendy Molyneux, Lizzie Molyneux-Logelin
  • Elenco: Allison Janney, Kristen Bell, Ben Platt, Cynthia Addai-Robinson, Isaach de Bankolé, Dustin Milligan, Jorma Taccone, Karan Soni, Julian Ovenden, Tony Goldwyn, Lizzy Caplan
  • Duração: 99 minutos

Em dado momento, a personagem de Allison Janney diz: “sabem aquelas pessoas em um casamento que todos comentam durante anos, o cunhado inconveniente que dançou, um tio que ficou bêbado e caiu…? Somos nós”. Bom, dá pra dizer com pouca chances de errar que Os Odiados do Casamento foi construído ao redor dessa cena, tendo-a como base para sua realização, a escrita de seu roteiro, a motivação de suas piadas até ali. E só. Infelizmente tem pouca coisa a mais que isso na estreia da Amazon Prime, e levando em consideração que isso tenha acontecido de fato, até terei de me esforçar para que o texto ocupe o espaço necessário de uma crítica decente, já que não há qualquer preocupação do próprio filme em ir além. 

Originalmente montadora, tendo inclusive ganho um Emmy pela edição de The Office, Claire Scanlon estreia aqui na direção de longas, já tendo passado por tantas séries quanto possível – Brooklyn 99, Unbreakable Kimmy Schmidt, Glow, Black-ish, e tantas outras. Se o seu ritmo e suas qualidades puderam ser vistos em suas incursões pelos seriados, aqui ele não está muito presente. A culpa não é exatamente do seu trabalho, que faz o que pode para garantir que o ‘timing’ não se perca. Baseado no livro de Grant Ginder, o roteiro das irmãs Lizzie e Wendy Molyneux simplesmente entulha suas situações em tempo ínfimo. Crises familiares de outras eras são encarcerados em pouquíssimo tempo de duração, e o resultado não apenas tem pouca graça, como tem ainda menos desenvolvimento. 

Na tela, vemos mágoas que têm razão de existir, parcerias que foram encerradas com justiça. O que não existe é o desenvolvimento dessas mesmas situações, que parecem simplesmente paridas de qualquer maneira dentro desse esquema entupido. Por mais que os conflitos tenham razão de existir, quando não há o desenvolvimentos dessas emoções e das ramificações de motivos, tudo acaba soando birrento e preguiçoso, quase infantil. Os Odiados do Casamento não tinha a intenção de soar gratuito, mas é o que acaba parecendo pois suas motivações não são bem delineadas. Duas irmãs em conflito, um filho que odeia a mãe, nada disso consegue ser impresso de maneira estrutural, e acabamos presenciando atos de imaturidade excessiva. 

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Os Odiados do Casamento
Laurie Sparham/Amazon Prime Video

Então o que temos é um filme que nem é tão engraçado quanto deveria, nem abdica disso por uma dramaturgia elevada. Os Odiados do Casamento acaba sendo uma experiência estranha, porque são temas relevantes e interessantes, o filme te prende atenção, ficamos focados no que está sendo contado, mas nada está em cena para que o público reflita sobre tais cenas e atos. São situações na borda de um tratamento pueril, ao contrário do que cada tema pedia. Homofobia, aborto, casamento aberto, famílias disfuncionais, são jogadas na roda coisas pertinentes e outras nem tanto, mas o tratamento dado a todas é o mesmo, sem que as coisas tenham significado a ponto de tocar seus personagens, ao menos não no campo do visível. Um passado com o qual não nos importamos e a culpa é do filme. 

O elenco de Os Odiados do Casamento é que não deixa as coisas saírem ainda mais do controle da displicência. Allison Janney (Oscar por Eu, Tonya) se segura de maneira muito positiva; é uma mãe sem qualquer estereótipo, é uma mulher ainda sexualmente ativa, é uma figura positivada contra tudo e todos. Kristen Bell (de As Trambiqueiras) é muito carismática, talentosa e empresta muito talento a uma mulher perdida na vida, com um romance desastroso que a impede de viver novas histórias e um passado recente muito pesado. Ben Platt (que acabou de pagar muitos micos em Querido Evan Hansen) aqui está totalmente à vontade, em terreno seguro que ele compreende e domina, absolutamente dono de si. Eles e o restante do elenco, porém, não conseguem aprimorar nem suas próprias interpretações (caso de Cynthia Addai-Robinson, que tem vários pianos para carregar e não consegue, sem que lhe caia culpa), porque o roteiro os tolhe de informações e cenas que lhe entreguem desenvolvimento. 

É uma pena que o resultado seja esse, porque a base de seus personagens é claramente interessante, e poderia ter rendido material muito superior ao apresentado. Os Odiados do Casamento se contenta em ser um chiste em uma cena curta, mas que não amarra suas situações, e deixa seus personagens à deriva de seu material. No fim das contas inclusive, Alice e Paul são duas pessoas muito irritantes e o filme termina sem que consigamos nos identificar com eles, porque o roteiro não permite tais coisas, apenas observar os muitos erros cometidos. 

Um grande momento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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