Crítica | Festival

Os Quatro Paralamas

(Os Quatro Paralamas, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Roberto Berliner
  • Roteiro: Roberto Berliner, Paschoal Samora
  • Duração: 99 minutos
  • Nota:

Crescer junto com os Paralamas do Sucesso é ter a consciência de que sua história está ligada a deles, independente de querer, ser fã ou não. Tenho apenas 4 anos de idade de diferença pra banda, e ouvi todos os sucessos nascerem, já que eu sou filho de uma casa musical-roqueira (um dos meus irmãos teve uma banda até famosinha no nosso bairro nos anos 1980, e além de músicas autorais, as composições de Herbert Vianna sempre estiveram na pauta do dia); se necessariamente não curti a juventude dos Paralamas como Roberto Berliner, eu ao menos vivi essa juventude, mesmo menino. Assistir a Os Quatro Paralamas logo não é uma experiência comum, mas uma espécie de catarse do passado.

Herbert, Bi Ribeiro e João Barone frequentam nossos rádios e tvs há quase 40 anos, e o diretor Berliner foi testemunha ocular dessa história, por isso captou a maioria das imagens mostradas aqui, e se torna uma espécie de personagem oculto, sempre à espreita de clipes, shows e registros imagéticos; ao lado de Paschoal Samora, co-dirige essa carta de amor a quatro caras que fizeram parte da História musical do país, e no lugar de construir mais um documentário musical nacional convencional, os diretores mostram (até cronologicamente, mas sem marcação temporal pesada) um olhar de afeto sutil entre homens que afirmam serem os melhores amigos uns dos outros.

Os Quatro Paralamas

Berliner tem mais experiência na cadeira que Samora, e já entregou alguns docs anteriormente, mais precisamente Herbert De Perto, que há 11 anos atrás já tinha deixado claro a amizade que o une à banda. Tão bem sucedido o projeto foi, que o caminho natural foi então se debruçar sobre a banda agora – ainda que parecesse mais natural o caminho inverso, a tragédia envolvendo Herbert (que em 2001 sofreu um acidente de avião que vitimou sua esposa e o deixou com permanente paraplegia) fez essa ordem se trocar. Agora, o olhar é sobre música e arte, mas principalmente sobre amizade e união.

Sem demarcar a passagem do tempo de maneira feroz, o filme monta essa cronologia de maneira afetiva, pautada nos sucessos e nas realizações, mas com atenção especial aos seres humanos, trazendo pro centro da narrativa um quarto elemento – Zé Fortes, amigo de juventude que se tornou o empresário da banda e é inseparável do trio. Com isso, o filme ganha um caráter de descoberta não apenas por esse personagem a mais, mas pela relação íntima que os une mais que aos próprios a suas famílias, como também é dito. Está nos detalhes, nos olhares, nas falas que isso se evidencia; “ele se emociona, viu?”, comentam Bi e Barone sobre uma determinada fala de Zé. A emoção, na verdade, é coletiva.

Os Quatro Paralamas

As micro-delicadezas imperam no longa, mas não tiram força das letras do grupo, nem de sua música já eterna. A belíssima cena onde o tecladista João Fera toca “Quase um Segundo” é daquelas que entram para uma possível antologia de imagens do filme, assim como o respeito da direção por clássicos como “Alagados” e “Lanterna dos Afogados”, que deixa claro como é a amizade e o profundo respeito que há por aquelas canções e seus criadores que movem o projeto, mas que a todo momento são vazadas por beijos trocados, por apertos de mão, por atitudes e comentários que revelam a família por trás deles, como quando Barone comenta o acidente de Herbert e sua reação à gravidade dos ferimentos – “na minha cabeça, era só a sobrevivência”, em contraste com o pranto de Zé diante do pior.

Com um montagem de trabalho impecável que se pronuncia com ainda mais força conforme o filme se aproxima do fim, Os Quatro Paralamas se insere na seara dos documentários musicais nacionais que tanto assolam as telas anualmente, mas acaba por se destacar do contexto geral pelo emprego de chaves emocionais não liberadas na direção do espectador, mas do que se observa entre esses quatro homens e que acaba contaminando os lugares por onde passam (a cena da viagem pro interior no início da banda é particularmente excepcional) para retroalimentar essa história que eles continuam escrevendo juntos, como toda boa família.

Um grande momento
“Ska”

[25º É Tudo Verdade]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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