Crítica | Streaming

Passado Violento

Um grande ator merece mais

(Clean, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Paul Solet
  • Roteiro: Paul Solet, Adrien Brody
  • Elenco: Adrien Brody, Glenn Fleshler, Richie Merritt, Chandler DuPont, Mykelti Williamson, Michelle Wilson, John Bianco, Gerard Cordero, Alex Corrado, David Fierro, Antino Crowley-Kamenwati, RZA
  • Duração: 94 minutos

Adrien Brody deve ser o vencedor do Oscar que menos merecia o que aconteceu com ele posteriormente, ao menos entre os recentes. Lembro que na noite de entrega dos prêmios, ouvi o saudoso Rubens Ewald Filho dizer enquanto ele caminhava para o palco, indo receber seu troféu por O Pianista: “não sabemos o que Hollywood fará com ele agora”. Como era comum nos comentários de Rubens, ele se referia a fisionomia do ator, que está longe de ser um homem feio, mas que de fato não vende uma silhueta fácil. Muito magro, com nariz muito evidente, é um homem interessante e um dos atores mais talentosos de sua geração, mas o meu colega tinha razão. Ao não saber o que fazer com alguém com seu potencial, Hollywood desperdiçou um talento admirável, que se vê à disposição de projetos como Passado Violento, o novo sucesso da Netflix. 

Ao menos esse título, dirigido por Paul Solet, que já tinha trabalhado com Brody em seu projeto anterior (Alvo Triplo), é um título praticamente autoral para o ator, que produziu, escreveu e ainda compôs a trilha. Ao assistir o projeto, entendemos que seu fascínio por Clean, um profissional de limpeza pública silencioso, que obviamente esconde tantas dores quanto segredos em seu passado. Sua persona parece misteriosa, mas ao longo da produção vamos percebendo que todos ao seu redor conhecem sua história, porém respeitam suas escolhas por manter-se alheio ao horror que voltará a bater em sua porta. O personagem é um prato cheio para um homem cheio de recursos como o ator, que nem sempre está em lugares que o exploram e deem a ele a oportunidade de revelar um pouco mais de seus vastos recursos. 

Passado Violento
IFC Films

Passado Violento não é um título surpreendente, longe disso. Na verdade, rapidamente temos noção do lugar para onde ele irá, como uma mistura de O Protetor com John Wick, mas muito mais próximo dos filmes protagonizados por Denzel Washington. Drama criminal que aposta em recheio de violência exacerbada, o filme é uma pedida certeira para quem curte essa trama menos elaborada, com que dramaticamente sempre funciona. Com a ajuda de um ator como Brody, o que poderia ser descartável ao menos ganha uma camada de dramaticidade que não é gratuita, e ainda ajuda a envolver a narrativa em seu mote de natureza trágica. Rapidamente também o ator nos convence dos traumas de Clean, e da sua necessidade por afeto acabar por traí-lo quando nova oportunidade de explosão surgir. 

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A atmosfera soturna procurada pela direção encontra reflexo na construção do próprio protagonista, homem de pouquíssimas palavras sussurradas. Com predileção pela noite, o filme avança na narrativa graças a uma possibilidade de redenção enviesada, que ele não conseguiu resolver em sua vida privada. Mesmo quando o dia invade as imagens, sua ambientação é a do inverno, com ruas carregadas de uma neve melancólica. Com isso, não é de se estranhar que Passado Violento seja recheado de uma violência gráfica muito constante, que tenta sobrepor seus resultados mesmo às custas de pouca ação. Tirando a sequência final, o filme é todo muito pontual em suas decisões de edições, o que o torna muito mais um título tristonho do que necessariamente uma produção de gênero. 

Passado Violento
IFC Films

Ainda que todo o foco dramático do filme seja muito bem cooptado pelo talento de Brody, seu nêmesis não deixa atrás no que diz respeito a entrega. Glenn Fleshler, cujo talento já conferimos em Coringa, Suburbicon, O Ano Mais Violento e tantos outros, é um daqueles coadjuvantes que nunca recebeu uma atenção devida dos projetos onde se envolveu. Sua capacidade, no entanto, já foi evidenciada nesses títulos citados e tantos outros, incluindo inúmeras séries de TV. Aqui talvez tenha um dos papéis mais centrais de sua carreira cinematográfica, o que é justo para o filme e injusto para sua história. Juntos, eles só tem seu confronto final de cena conjunta, mas em separado ambos promovem os reais pontos de interesse de um filme genérico até em sua densidade. 

Um daqueles filmes esquecíveis repletos de interesse da parte de quem assiste, Passado Violento não chega na memória até o mês que vem, mas suas características imediatas fazem do título uma competente sessão. Se não exigirmos diálogos elaborados (ou se não nos importarmos com os constantes voice overs que, em tese, ajudam a narrativa a se adensar ainda mais, mesmo com resultados que beiram o brega aqui e ali, esse sucesso pode agradar ao público. Ao menos é uma realização particular de um ator tão singular que parece só ser lembrado por Wes Anderson, mas que cujo talento deveria ser absorvido independente de sua estampa, mas que deixa clara a redoma da indústria por artistas que não são loiros e de fisionomia talhada em biótipos de deuses gregos. 

Um grande momento
O boliche 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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