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Poder e Corrupção

Atores à espera de um diretor

(The Corrupted, GBR, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Ron Scalpello
  • Roteiro: Nick Moorcroft
  • Elenco: Sam Claflin, Timothy Spall, Hugh Bonneville, Noel Clarke, Charlie Murphy, Joe Claflin, Naomi Ackie, Aled Arhyel, David Hayman, George Russo, Don Gilet, Cathal Pendred, Alan McKenna
  • Duração: 103 minutos
  • Nota:

O elenco de Poder e Corrupção é o grande atrativo de produção, uma daquelas histórias certeiras que já vimos tantas vezes, mais uma representação de Davi contra Golias moderno, com os donos do poder de uma grande metrópole (aqui no caso, Londres) com sua forma insidiosa de aproximação a desvalidos sociais, representado aqui por um homem que cometeu um erro no passado, pagou pelo ato e agora não consegue reintegração à sociedade. A pitada adicional de interesse advém do fato de que tal história é inspirada em eventos verídicos, ainda que nada seja muito diferente narrativamente de tanta ficção que o cinema já apresentou nos mesmos moldes.

O diretor Ron Scalpelo, que começou como jornalista musical nos anos 1990, chega ao seu quinto longa metragem sem correr riscos, à base de burocracia estética e um roteiro que nem se esforça em criar algo minimamente novo – a maior parte dos acontecimentos é possível prever com alguma antecedência. Como o trabalho de Scalpelo é uma mera reprodução de imagens produzidas sem qualquer diferencial, um amontoado de cenas que se sobrepõem sem causar as devidas motivações no espectador, a impressão de estarmos diante de um programa reprisado é imensa, cujo tempo de projeção nunca é compensado.

Ao redor dessa narrativa, passeia um grupo de atores que estiveram em projetos melhores exibindo muito mais talento que aqui, mas sua presença contribui para que a produção não naufrague completamente; sua credibilidade impulsiona o interesse ao desenrolar dessa trama já tantas vezes vistas, e impregna de alma um projeto que depende quase que exclusivamente deles. Vilões muito malvados em situação sem qualquer ambiguidade, mocinhos muito arrependidos de seus feitos pregressos, a corrupção generalizada que varre várias instâncias apontadas no projeto acabam recebendo substância graças a atores que acreditam nas ações e reaçẽs de seus personagens mais do que a própria produção.

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Poder e Corrupção

O rapaz Sam Claflin, por exemplo, tem aqui uma primeira chance de se estabelecer fora dos projetos muito leves e descompromissados que tinha estrelado até então. Mocinho de Como eu Era Antes de Você, ano passado demonstrou nuances novas em Enola Holmes, mas aqui tem uma chance de ser visto como um homem adulto envolvido em situações mais adensadas, e isso realça características que os romances que participou já anteviam, a de um ator muito preparado para um salto maior de oportunidades, que acaba conferindo a Poder e Corrupção um misto de força e fragilidade na medida certa, dando curvas ao personagem e elevando o material à sua disposição.

A dupla de bandidos é vivida com igual brilho por Timothy Spall e Hugh Bonneville, dois atores de imensos recursos já referendados anteriormente e que aqui parecem realizar seu trabalho com o pé nas costas. O primeiro já ganhou prêmio em Cannes (Mr. Turner) e aqui desfia um manancial de frieza que eleva suas cenas e transformam a experiência em um palco muito particular para demonstração de seu talento abissal; o segundo, que por anos esteve em Downton Abbey e brilhou em Íris e Um Lugar Chamado Notting Hill tem participação tão discreta quanto eficiente, formando uma dupla assustadora com Spall, e os momentos de ambos, tensos ou descontraídos, são momentos especiais.

É uma pena que todo esse esforço em grupo (que ainda inclui a promissora Naomi Ackie e o veterano David Hayman) seja quase unitário, frente a realização que segue sem ímpeto ou fôlego, se restringindo a contar uma história de maneira pálida. É como assistir a um grande pintor conceber um quadro com tinta guache ou um escritor premiado concluir um romance com uma caneta sem tinta – os profissionais escolhidos para dar vida às ações foram os mais acertados, pena que todo o resto perdeu o ânimo antes de começar.

Um grande momento
O sangue esguicha no rosto

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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