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Possessão

O casamento como destruição do indivíduo

(Possession, FRA, RDA, 1981)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Andrzej Zulawski
  • Roteiro: Andrzej Zulawski, Frederic Tuten
  • Elenco: Isabelle Adjani, Sam Neill, Margit Carstensen, Heinz Bennent, Johanna Hofer, Carl Duering, Shaun Lawton, Michael Hogben
  • Duração: 124 minutos

Nada em Zulawski é apenas aquilo que se mostra. Possessão conta a história de um casamento em frangalhos, mas está diante de um contexto político gigantesco que não pode ser ignorado. É o fim da Guerra Fria e o muro de Berlim, não por acaso vista do apartamento, é uma referência constante no cenário. A solidão humana e a melancolia do período estão na arte gélida, no vazio dos espaços, na posição dos corpos em cena, postura dos atores. Se não causa ou efeito, é elemento fundamental de constituição, marco determinante do espírito das coisas.

O longa do diretor ucraniano é explícito, mas nada óbvio. Não quer definir quem são ou o que fazem seus protagonistas, mas destrinchar pelo que estão passando. Quando Mark volta para Anna, ela não o quer mais, mas ele fará de tudo para recuperar o casamento. Nenhum dos dois entende o que está acontecendo direito embora percebam o que querem, ou que não querem mais. É quando ambos mergulham no desespero masoquista de uma relação fracassada onde a felicidade nunca mais será possível na configuração prévia. Ela se encontra na ausência, ele, na mendicância. Entre eles, o pequeno Bob existe como moeda de troca.

Possessão

Na distância entre os dois, o filho, laço real de um afeto que os une, é uma desculpa para que ainda exista algo. Dos cordiais “Ele sabia que você ia voltar hoje”, “Venha ver o que ele está fazendo”, ao forçado “Se você ainda quer vê-lo, vai ter que me aceitar aqui”, a criança vai virando a desculpa para a existência da relação que os dois corpos eliminam e transformam dentro de si. Nesta transformação, Anna rompe com a maternidade conformada pela sociedade para se encontrar e Mark a assume, também em busca de si. No autoencontro, porém, Zulawski, desenha outros, terceiros. O casamento, para ele, é a doença da projeção. E será que não é essa a doença de qualquer relação? O esperar do outro aquilo que ele não pode ser?

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Em Possessão, Anna, em um primeiro momento desaparece de casa, vai buscar sua felicidade longe de Mark, posteriormente isso se reverte. Na verdade, na alegoria, nem se precisa acreditar na existência de um exterior. Embora ela exista e seja real na figura de Heinrich, o amante performático que vem para reafirmar a masculinidade frágil de Mark, o que transcende o casamento é muito mais emocional e imaginário do que qualquer outra coisa. Os dias de Anna e Mark, em suas criações de liberdade e luta pela família, estão no imaginário dos dois. Estão no retorno a suas subversões de suas próprias imagens, nos duplos que criam de seus parceiros.

Possessão

Mark e Anna são doentes um pelo outro. Se desejam e não se desejam mais. Têm necessidade de estar juntos, mas se abominam. Ela quer um Mark que a satisfaça, que a faça perder o sentido e a razão, que não tenha limites, que desafie o próprio corpo. Isso é dela, sempre foi dela. Ele quer uma Anna dócil, padrão, de cabelo trançado, meiga como uma professorinha de primário e sempre disponível para quando ele precisa dela.

Os caminhos dos dois em busca dos seus seres perfeitos com quem querem estar, tão contaminados de obsessão e perversão quanto o próprio casamento, se contrapõem. Ambos os personagens se sujeitam ao que há de pior para atingir aquilo que querem, aceitam qualquer tipo de violência sem se importar com ela, quase que precisando da dor para existir, mas enquanto o tom de libertação é claro em Anna, Mark é apenas desespero. É como se ela sempre soubesse onde quis chegar, mas ele não tivesse a menor ideia.

Possessão

E o espectador segue junto com ele por algum tempo, no jogo sádico de Zulawski, que vai salpicando seus cenários de sangue e provocando cada vez mais a estranheza, com personagens, criaturas, diálogos e reviravoltas. Tateando mentalmente no escuro até a constatação do lar plácido e da relação cálida daqueles que seriam, a que preço?, os pares perfeitos.

Possessão é um filme de desassossego, de perturbação. Em seu mar de azul, com pausas para o absurdo grotesco, tira do lugar, faz pensar e, ao mesmo tempo, constrange por onde coloca um de seus personagens e surpreende pela força de enfrentamento do outro. Equilibrado entre imagem e palavra, com planos e posicionamentos de cena impressionantes, ainda tem atuações gigantes de Sam Neil e Isabelle Adjani. Ela, especialmente, no melhor papel de sua carreira: corpo, voz e mente em completa sintonia.

Um grande momento
“O que eu perdi foi a minha irmã fé e o que restou foi a irmã acaso”

O filme Possessão foi escolhido pela apoiadora Enoe Lopes Pontes. Apoie o Cenas e peça o seu!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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