Crítica | Cinema

Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido

O nosso amor a gente inventa

(Felkészülés meghatározatlan ideig tartó együttlétre, HUN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Lili Horvát
  • Roteiro: Lili Horvát
  • Elenco: Natasa Stork, Viktor Bodó, Benett Vilmányi, Zsolt Nagy, Péter Tóth, Andor Lukáts, Attila Mokos, Linda Moshier, Júlia Ladányi
  • Duração: 91 minutos

Você está quieta no seu canto, levando a sua vida, com tudo no lugar e um dia, em uma fila de cinema, ou em qualquer outro lugar, o mais inesperado que seja, encontra aquela pessoa que acha que é a que esteve procurando por toda a sua vida. Aquele momento se transforma na sua cabeça, cada segundo adquire uma relevância que nada mais parece ter tido, tudo é gigante, superlativo. Seu corpo inteiro grita com você e fica assim por dias e dias. A paixão é como a uma doença, um vício, aliena, enlouquece, transforma a vida pós-encontro numa busca constante pela mesma sensação, e, insanamente, muito do que se vive é criado, está nos floreios imaginativos do ser apaixonado. Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido, enquanto corajoso, é sobre isso.

É assim que quem se apaixona larga tudo para trás, inclusive o bom-senso, pega um avião, gasta uma fortuna, e vai encontrar-se com a pessoa de quem não consegue mais ficar um minuto longe. É assim que esse  alguém pode descobrir que do outro lado pode não haver ninguém além de uma imagem criada pela sua vontade, carência, desejo ou qualquer que seja o sentimento. Essa é a história de Marta, mas podia ser a minha, a sua e a de tantas outras pessoas pelo mundo afora. A diretora e roteirista Lili Horvát parte de um lugar muito familiar e identificável para construir a sua história. Se os passos não são os mesmos, os locais mudam, os sentimentos e reações são velhos conhecidos.

Preparativos para ficarmos juntos por tempo indefinido

A dúvida da paixão — além do sentimento de Marta, que de tão real é quase palpável — está por todo o filme, desde o poético e vago título aos eventos narrados pela protagonista. As interações entre esta e Janos também são construídas de maneira artificial. Mais do que questionar, a ideia é perceber a interferência e o quanto cada um desses momentos contrasta com a personalidade prática e fria da protagonista. Horvát exagera quando investe pesado na contraposição de enquadramentos e elementos de cena. Um bom exemplo seria a secura da visita do pós-operatório em comparação ao passeio nas calçadas opostas. Porém, quando a diretora confia que o sentimento é suficiente para falar por si, o filme adquire uma força extra.

A atriz Natasa Stork, aliás, é uma peça importante para que a interação com o público seja efetiva. É através de seus silêncios e olhares que quem está do outro lado da tela se reconhece. A apresentação, da ansiedade e animação iniciais ao mergulho silencioso na frustração, ainda sem muitas informações, estabelece um vínculo que nem mesmo os deslizes do filme rompem. Por um momento, Preparativos Para Ficarmos Juntos… conta um pedacinho da história de muita gente e é aí onde está a sua força. Ilusão, expectativa, decepção, fixação são sentimentos compartilhados por quem já esteve imerso em uma história que tem as fronteiras entre o imaginário e o real pouco definidas. Stork sabe bem o que deve mostrar, quando ela cai, caímos junto com ela.

Preparativos para ficarmos juntos por tempo indefinido

“Me perdi no que era real e no que eu inventei.”

Enquanto aposta nesse jogo do imaginário, da ilusão da paixão e da concepção do encontro, Preparativos para Ficarmos Juntos… é um filme muito interessante. Dividido entre o cotidiano alterado de Marta e sua ruptura com a vida como conhecia, ela retorna à cidade natal, e alterna entre dois universos: o externo, numa busca imperceptível pelo “pior” (o hospital, o apartamento) e o interno, na atenção ao belo (o coro, as palavras bem ditas); o palpável em contraposição ao “mágico”. Entre o devaneio e o lúcido, Horvát desloca a personagem e deixa o tempo impreciso, abre margem para que a própria protagonista tente explicar o que sente. E o filme vai se dividindo em camadas que se entrelaçam: eventos, sentimentos e sensações, e divagações. Na tela, obviedades da vida fora dela, num jogo que prende e interessa.

Tudo vai muito bem até que a definição chegue. Preparativos Para Ficarmos Juntos… consegue fazer a ligação para o seu terceiro ato, ainda sabe manter a dúvida e isso é bom, mas se perde no roteiro quando precisa apelar para a desprotagonização. Depois de tanto tempo junto a Marta, essa quebra é ruim ao filme e faz com que o desfecho esteja em uma frequência que o filme negou durante toda a sua duração. Por mais que aquilo que se vê tenha uma conotação esquisita e disforme, que não segue as normas tradicionais, está de acordo com o esperado quando se pensa no padrão de final estabelecido por gerações e gerações e isso, de certo modo, frustra. Mas não deixa de valer a jornada.

Um grande momento
Em busca de um diagnóstico médico

Disponível no Cinema Virtual a partir de 4 de junho

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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