Crítica | Streaming

Queens

You can dance

(Dancing Queens, SWE, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Helena Bergström
  • Roteiro: Helena Bergström, Denize Karabuda
  • Elenco: Molly Nutley, Christopher Wollter, Fredrik Quinones, Rakel Wärmländer, Max Ulveson, Claes Malmberg, Mattias Nordkvist, Marie Göranzon, Emil Almén, Razmus Nyström, André Christenson, Dominika Peczynski, Fredrik Robertsson, Louie Nelson Indriana, Ann Westin
  • Duração: 110 minutos

“If you can’t love yourself how the hell you gonna love somebody else?”

Numa cidadezinha numa das ilhas interiores da Suécia vive Dylan, uma jovem dançarina fã de Dirty Dancing que perdeu a mãe e desistiu de perseguir seu sonho. Mas isso muda quando ela descobre a cultura Drag.

E como Mama Ru, apelido artístico de RuPaul André Charles, o mais famoso drag queen do mundo — atualmente junto com a Pabllo Vitar — sempre dizia, dentre tantas icônicas frase: drag é a liberdade de ser quem é. Queens, de Helena Bergstrom, que chegou tímido na Netflix é um feel good movie daqueles que faz bem ao coração e de quebra acrescenta mais um brilhante no universo dos conteúdos com temáticas queer.

Queens

A polêmica no argumento e roteiro desenvolvido por Helena e Denize Karabuda poderia criar complicações no desenvolvimento do arco da história ao optar por uma protagonista mulher cis se não fosse a sutileza em abordar as nuances do universo drag — e sim, mulheres também podem ser drag queens. Mais recentemente, no reality show de sucesso interestelar criado por RuPaul, o Drag Race, uma das participantes (Gottmik) era um homem trans e foi até a final.

Nesse universo cada uma tem seu nicho, como explica o dançarino e coreógrafo Victor para Dylan, quando ela chega na boate Queens para fazer faxina mas acaba mostrando alguns passos de dança.

“As comedy queens
As fashion queens
E as dancing queens”

Queens

Frederik Quinones, que interpreta o coreógrafo do show Dancing Queens, Victor, é um renomado bailarino na vida real e coreógrafo do filme. E é delicioso vê-lo dançar solo ou com Molly Nutley, a intérprete de Dylan – e que é filha da cineasta.

Como as melhores temporadas de Drag Race e ainda trazendo aquela pegada de superação do já citado Dirty Dancing e de Flashdance, Queens é a jornada de cura e de entrega de Dylan e também das drags da casa de shows que precisa ser salva. Após a morte de uma companheira icônica, a principal atração do lugar, Tommy La Diva, está vivendo o maior perrengue com as outras queens do lugar e o gerente.

Na melhor tradição da literatura que posteriormente foi abarcada pelo cinema, a queerness de Dylan emerge quando ela se disfarça de homem cis para conseguir integrar o cast das performers da boate e fazer parte do show Dancing Queens. E não, supreendentemente não toca ABBA na trilha sonora mas sim hits contemporâneos da disco music europeia — quem viu Eurovision vai amar mais — e “I Will Survive”, o hino.

Queens

“Dançar não dói mais, não é?”

Dylan se encontra, se aceita e se sente parte da família Queens. Mas como era de se esperar a farsa é revelada e ela é questionado pelas outras drags, sendo considerada uma menina inconsequente que vai brincar enquanto outros se sacrificam pra serem quem são. E ainda é acusada de estar tendo um caso com Victor – que é notoriamente gay e ainda bem que o filme não catalisa mesmo um romance entre as personagens.

Porque drag não é sobre gênero mas sim sobre atitude; e Queens vai solidificando a jornada da protagonista mas sem abrir mão de explorar também como os personagens no entorno vão se abrindo a partir da chegada dela. É certo que o desfecho, apoteótico demais quebre um pouco da verossimilhança mas está tudo empacotado em glitter e com tanto carinho que não cria um incômodo maior.

Mesmo sem ser grandioso na forma, Queens é espirituoso no conteúdo e o elenco ajuda demais a tornar o filme satisfatório, daqueles que é possível inclusive querer ver de novo especialmente em meio a tanta desesperança e caos no mundo. Porque seja no otimismo da avó de Dylan, seja no sair do armário do melhor amigo dela ou na forma que vence suas dores para deixar as cores do arco íris brilharem dentro de si, o filme cumpre seu propósito de entreter e bem.

Um grande momento
O aconchego no palco colorido

Fotos: Jan Tove

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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