Crítica | Festival

Rama Pankararu

(Rama Pankararu, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Documentário
  • Direção: Pedro Sodré
  • Roteiro: Bia Pankararu
  • Elenco: Bia Pankararu, Tássia Leite
  • Duração: 95 minutos

Tem um filme muito bom escondido em Rama Pankararu, que estreou no Cine PE 2022 com uma carga de importância bem evidente. Destinado à comunicação direta, o filme é um híbrido de ficção e documentário que encontrará admiradores no mesmo pé que questões sobre suas decisões, o resultado delas e a noção que temos acerca do tema no audiovisual. Tenho lido ataques na direção de Ela Disse a esse respeito, filme que acabou de estrear e cujo mote do #MeToo e dos crimes de Harvey Weinstein colocam em instância particular. Aqui, a ameaça aos indígenas, seu constante encontro com o genocídio, e a forma como as novíssimas gerações lidam com o medo constante está na pauta do dia, e do filme. Por outro lado, as deficiências da produção a deixam em situação delicada junto à análise cinematográfica.

O diretor Pedro Sodré tinha boas intenções, uma interessante análise a respeito do novo se contrapondo ao tradicional em discurso, questões sobre a sexualidade não-discutida de povos originários, sobre a violência que passou pelos mais velhos e chegou até a geração atual com destruição ímpar. Ao lado de Bia Pankararu, protagonista, roteirista e consultora do filme, ele tem a empatia de olhar para o quadro e uma imensa vontade de sair do compadecimento, mas não o faz. O que salta aos olhos diante de Rama Pankararu é essa profusão de caminhos possíveis para uma narrativa rica, sendo categoricamente desperdiçadas por uma inabilidade de conclusão, ou em não ter um lugar de avançar nos assuntos, apenas apresentá-los, para seguir sem reflexão.

Bia consegue agrupar uma quantidade significativa de temas para discussão, e Sodré tem interesse em expô-los, com maior ou menor grau de qualidade. Mas, no quadro geral, são assuntos abordados, porém sem aprofundamento, com uma visão restrita ao seu lugar de exposição. A cena do conflito entre as duas protagonistas é um exemplo de algo que o filme repete algumas vezes. Esse conflito não é apresentado previamente, precisaríamos de um incômodo para que ele fizesse sentido. É uma situação muito boa, mas que está solta na narrativa, que não tem arco de coerência nem significação posterior. E como não aproveitar a ideia de ressignificação dos papéis do masculino e do feminino dentro da sociedade indígena hoje, deixando de problematizar a misoginia e o machismo que podem existir dentro de rituais, vemos em Rama Pankararu.

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As motivações das personagens, embora estejam claras pro espectador, demoram a ser desenvolvidas no roteiro. Como se não fosse tão importante assim estabelecer a relação entre as protagonistas, ou delas com seu ambiente. Tudo é vago e descontinuado, sem precisão de suas colocações, arrastando tanto a ficção quanto o documentário para esse lado enevoado. Rama Pankararu não consegue firmar uma ideia em sua espinha dorsal, por conta dessa dissonância narrativa. É uma experiência híbrida onde saem perdendo os dois lados da obra, ambos tendo dificuldade em estabelecer um teto de conversação e análise. Os encontros com os entrevistados não tem dinâmica comum, sugerindo mais uma vez que o filme tinha uma ideia (ou muitas) e não conseguiu alimentar seus conceitos, deixando-os à margem do debate.

Na reta final, Bia vai a uma espécie de simpósio para promover um debate. Nesse momento, percebemos o filme perdido em Rama Pankararu; em resumo, é abordado tudo que é do interesse de sua personagem. Como deveria tentar uma integração com os mais velhos para promover um novo tipo de olhar para as lideranças, que não deveria ser unilateral. Dentro dessa cena, cabem muitos belos filmes que Sodré resumiu, mostrando que estava no caminho certo; pouco, além disso, estava nesse lugar. Com uma montagem que não consegue definir ritmo ou temporalidade, o filme serve como aposta para um campo de debate cheio de camadas. Mas elas deveriam ser mais do que exemplificadas para criar um mote retórico; do jeito que ficou, as sugestões não adiantam para compor um painel que vá além da importância.

Um grande momento

O discurso de Bia

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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