Crítica | Cinema

Ela Disse

Por todas

(She Said, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Maria Schrader
  • Roteiro: Rebecca Lenkiewicz
  • Elenco: Carey Mulligan, Zoe Kazan, Patricia Clarkson, Jennifer Ehle, Andre Braugher, Samantha Morton, Angela Yeoh, Ashley Judd, Peter Friedman, Zach Grenier, Tom Pelphrey, Adam Shapiro
  • Duração: 125 minutos

Precisamos falar sobre Ashley Judd, pra começar. Surgida com imenso sucesso já em seu segundo longa, O Sol do Paraíso, a atriz emendou inúmeros papéis coadjuvantes em filmes de prestígio, como Cortina de Fumaça, Fogo Contra Fogo e Tempo de Matar. Em 1997, sua vida muda por completo; após protagonizar Beijos que Matam, Judd vira uma espécie de Charlize Theron do período, enfileirando thrillers de sucesso, como Crimes em Primeiro Grau, A Marca e o maior de todos, Risco Duplo. A vida não poderia estar melhor, como uma das grandes estrelas da época. Indicações ao Globo de Ouro e uma profusão de sucessos, Judd começava inclusive a se mostrar uma atriz superior, em filmes como Possuídos e Encontros ao Acaso. É exatamente nesse momento que a vida da atriz esbarra com a de Harvey Weinstein, o todo-poderoso Midas de Hollywood naquele momento há 20 anos. O resto, está em Ela Disse

Esse texto não começa em Ashley Judd à toa. A atriz que vai completar 55 anos é uma das incontáveis vítimas do machismo, da misoginia, da violência sexual, do assédio moral, do horror absoluto que ainda hoje eclodem provas contra si, e do apagamento de suas carreiras. Baseado nos artigos escritos para o ‘New York Times’ por Megan Twohey e Jodi Kantor, o filme fala sobre Judd, sobre Rose McGowan, sobre Gwyneth Paltrow, mas fala muito mais do que o que as torna vítimas, somente. Dirigido por Maria Schrader, finalista ao Oscar por O Homem Ideal e vencedora do Emmy pela impressionante Nada Ortodoxa, o filme é também uma carta de amor ao feminino. Em toda a sua minúcia, em seu cuidadoso e sutil tratamento, em sua inquietação contínua relacionado ao sujeito mulher, Ela Disse surpreende por nos entregar bem mais do que estava na pauta do dia da produção.

Ela Disse
Universal Pictures

Schrader sabe que faz parte de uma tradição de filmes que vão dos clássicos A Montanha dos Sete Abutres e Todos os Homens do Presidente até os recentes The Post e Spotlight, vencedor do Oscar, que dissecam o jornalismo investigativo como base do suspense. É uma escola que convencionou-se apontar relaxamento nos valores de autoralidade, mas justamente em Ela Disse temos novas provas de uma inquietação de sua autora. As linhas paralelas horizontais que invadem todos os cenários, por exemplo, remetem na confecção dessa imagem ao tratamento dado aos periódicos. Aqui em específico, um filme situado em 2016, onde o jornalismo sofre para sair do escaninho virtual, essas imagens refletem sobre um tempo que já se encerrou, mas que assombra a modernidade; o jornalismo é isso. 

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A diretora, que já tinha demonstrado anteriormente seu valor na construção de material cinematográfico, sabe que aqui o texto escrito é de profunda centralidade, e como tal precisa fazer também o verbo brilhar. O faz com tamanha dedicação mas sem perder o foco do plano, promovendo um casamento audacioso entre dois elementos cuja conversa é primordial. Responsável pelos brilhantes roteiros de Small Axe, Desobediência e Ida, Rebecca Lenkiewicz assina um texto de profundidade em sua aparente coloquialidade. É desse senso de naturalismo vazado pela História que Ela Disse demonstra seus maiores predicados, um texto que vai do prosaico mais inconsequente à reuniões de pauta decisivas e tensas. No miolo de tudo, a Mulher. 

Ela Disse
Universal Pictures

É na troca de olhar entre elas, que essa confiança estabelecida entre personagens alcança o espectador e promove uma catarse invisível, plácida. A maternidade (que pode ser infalível, ou não), o medo do fracasso, a competitividade oriunda de todos os lados, pouco é taxado em Ela Disse, porque está tudo à flor da pele, dos olhos, do toque e tão fortemente, que toda a verdade é ressignificada. O assédio é o cerne da questão, é a mola que move o projeto, mas a alma dele é a rotina de uma mãe, é o desespero de uma mulher diante de um filho, é a profissional que precisa provar mais e melhor. Até sofisticado, o filme não ousa filmar o horror – ele é narrado. E cinematograficamente, essa é uma simbologia crucial: o cinema é a arte de contar histórias e convencer a respeito de  sua veracidade ao interlocutor. Por isso seguimos até o fim, e com muita interessa, sua denúncia. 

A bordo desse barco, o elenco é a chave desse entendimento. Ela Disse não têm um elenco que apenas necessariamente suficiente se entende, se gosta e se mantém fiel. As cabeças de chave, Carey Mulligan e Zoe Kazan, impressionam pela absoluta fuga do melodrama; é tudo feito num talho marcante da profundidade de campo, muitas vezes, pela sua montagem. O resto do elenco é quase uma unanimidade: Andre Braugher, Patricia Clarkson, Jennifer Ehle e Samantha Morton estão brilhantes em seus momentos, breves ou demorados. É como se mais uma vez o trabalho, e o trabalho realizado por mulheres, fosse a centralidade de mais um filme. Insistindo na dualidade entre o trabalho, e todos os outros desejos de vida, empilhados, o filme mostra que não são apenas discurso que nos fará mudar, mas principalmente as ações – do carinho que salta aos olhos, até a veemência do trabalho. Tudo isso mergulhado no feminino, e na prova de sua multifacetação.

Um grande momento

Zelda Perkins

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Fernanda Souza
Fernanda Souza
09/12/2022 07:55

Está no todo, mas grita nos detalhes. Maternidade falhada. Tinha que ser homem. Logo esse filme.

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