Crítica | Cinema

Irmãos de Honra

Comunicação de qualidade

(Devotion, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura, Drama, Guerra
  • Direção: J. D. Dillard
  • Roteiro: Jake Crane, Jonathan Stewart
  • Elenco: Jonathan Majors, Glen Powell, Christina Jackson, Thomas Sadoski, Joe Jonas, Daren Kagasoff, Spencer Neville, Nick Hargrove, Boone Platt, Joseph Cross, Serinda Swan
  • Duração: 135 minutos

Infelizmente, é virtualmente impossível abordar a história que conta Irmãos de Honra e pensar que existe a possibilidade de não abordar o racismo histórico (estrutural, mas não apenas) existente em uma sociedade que, ainda em 2022, não aprendeu noções das mais básicas a respeito de civilidade e respeito. Volte para a década de 1950 e isso piorará exponencialmente, e mesmo em ambientes institucionais, o preconceito, que já deveria ter sido abolido, ainda se embrenhava com facilidade. Felizmente, no entanto, esse assunto já não é mais algo que seria considerado menor dentro de uma narrativa; podemos sim usar a máquina da indústria para deflagrar histórias cheias de pormenores como essa, intrincada dentro de uma estrutura maior. 

J. D. Dillard, que dirigiu o irregular O Mistério da Ilha, aqui melhora consideravelmente seu repertório, graças aos seus propósitos, em particular. Se o roteiro de Jake Crane e Jonathan Stewart para o livro de Adam Makos tem a coragem de adentrar nessas questões de maneira direta, é a postura da direção que permite ao filme uma coragem insuspeita. Ao não se importar com essas tais instituições na hora de contar sua história de maneira mais intensa e até provocativa, Irmãos de Honra entende que a administração de seu ritmo é crucial para que o espectador se envolva naquela narrativa. Não é uma questão de pano de fundo, até porque o racismo está no centro da narrativa; ele só precisa então ser enxergado enquanto mantenedor de uma estrutura, para enfim combatê-lo com imagens. 

Irmãos de Honra
Diamond Films

O Cinema não precisa somente de mais diálogos que denunciem didaticamente o racismo, isso já vemos com frequência em títulos medíocres, mas de imagens que explicitem seu oposto, na essência das ações. Se até mesmo uma nulidade racista como Green Book consegue reproduzir uma bela (e única) cena que efetive o horror contra a comunidade – o carro passando pelas plantações de algodão, enquanto Mahershala Ali assiste a violência muda – Irmãos de Honra se esbalda desses momentos. Um dos mais emblemáticos é quando a tripulação negra do porta aviões vai até o deque para assistir (e torcer) pelo pouso de Jesse Brown, em condições de admiradores. A representação gráfica de cena é tão sutil quanto poderosa, para reverberar o alcance de Brown, principalmente. 

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Tudo isso é concebido pela lente de Erik Messerschmidt (Oscar pela fotografia de Mank), que consegue dosar no filme o que ele tem de solar e também de sombrio. Um filme que é também ele uma aventura histórica de guerra, com cenas impressionantes de batalhas aéreas, não tinha como ser fotografada por uma única perspectiva. A forma como Messerschmidt conduz essa dualidade de planos e intenções é sempre a encaixar tais visões e sua amplitude de conexões. Irmãos de Honra acaba por não ser nem uma coisa nem outra, mas um amálgama do que poderia exibir, dentro do que é claro e convidativo, sem deixar de mostrar como aqueles personagens também convivem com a sombra constante. 

Irmãos de Honra consegue outro equilíbrio, talvez ainda mais raro. O filme dialoga com dois públicos diferentes, não necessariamente opostos, mas que buscam sensibilidades que nem sempre se comunicam nas obras. Dillard e sua equipe não tem medo de assumir que seu projeto se inspira em filmões à moda antiga, épicos de narrativa clássica, que atrai um contingente menos engajado politicamente às pautas identitárias. Apesar dessa aparente restrição, esse segundo público também se verá claramente contemplado pelo título, porque o filme constrói sua crítica de maneira igualitária e direta, compromissado em evidenciar os horrores nada implícitos cometidos em todas as searas. Nesse sentido, o alcance do filme é ainda mais propositivo. 

Irmãos de Honra
Diamond Films

O filme se monta como um microcosmos refletido em diferentes escalas, onde o que acontecia dentro das instituições era representado em igual violência entre vizinhos, ou em estabelecimentos comerciais, ou nas relações sociais e interpessoais. Toda a maneira que se estabelece a relação entre Brown e o novato Tom Hudner é intensa e muito humana, onde seus diálogos traduzem mais o que sentem cada personagem, do que uma ideia de representatividade que estaria óbvia. São os talentos de Jonathan Majors (de Vingança & Castigo) e Glen Powell (de Top Gun: Maverick) que fazem isso, mas a forma como essa amizade é delineada e conduzida também pelo filme é a porta de entrada para os talentos dos atores. 

Ainda que tenha uma estrutura, principalmente na missão final, que remeta justamente a maior bilheteria do ano, o supracitado Top Gun, Irmãos de Honra se comunica com outras possibilidades de cinema. É um filme cuja narrativa não está disposta a uma comunicação com as esferas de poder, e sim tem como interesse justamente bater de frente com o sistema, muitas vezes. É uma produção que consegue superar o melodrama e entregar reflexão genuína e aventura de qualidade, ainda inclusive apelando para a emoção, que igualmente nos toca pela forma com que seus predicados estão dispostos e engendrados em cena. 

Um grande momento

O resgate

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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