Crítica | Streaming

Rebecca: A Mulher Inesquecível

Leão de patas amarradas

(Rebecca, GBR, 2020)

  • Gênero: Suspense
  • Direção: Ben Wheatley
  • Roteiro: Jane Goldman, Joe Shrapnel, Anna Waterhouse
  • Elenco: Lily James, Ann Dowd, Kristin Scott Thomas, Armie Hammer, Pippa Winslow, Lucy Russell, Bill Paterson, Sam Riley, Keeley Hawes, John Hollingworth
  • Duração: 121 minutos
  • Nota:

Nos primeiros 15 minutos da nova versão para o romance de Daphne du Maurier, Rebecca: A Mulher Inesquecível, a câmera do diretor Ben Wheatley displicentemente observa um fio puxado no terno do seu protagonista, Armie Hammer (de Me Chame pelo seu Nome). Talvez um descuido de figurino, aquela ranhura onde outra produção buscaria perfeição traduz o que se buscaria nas obras do jovem diretor britânico (48 anos, pra mim, ainda é sinal de juventude) que já nos mostrou arestas não aparadas na sociedade em filmes intensos como Kill List, A Field in England e Free Fire, uma coleção do mais heterodoxo cinema independente inglês da atualidade – e sangrento.

Seu cinema combina com aquele fio puxado, com as roupas amassadas de Lily James (de Cinderela), com a boca suja de vômito de Ann Dowd (de Hereditário), elementos que vão perdendo a importância nesse seu novo longa conforme sua protagonista Mrs. De Winter, jovem sem recursos que arrebatada de paixão por um viúvo misterioso, casa-se e segue rumo à mítica Manderley, onde ele vive. Esse desacerto de imagens vai sendo substituído por uma construção tradicional já vista tantas vezes, mas inaugurada provavelmente nessa obra literária, que em dois anos de publicada se viu adaptada por ninguém mais que Alfred Hitchcock, rendendo o clássico de 1940 vencedor do Oscar.

Rebecca: A Mulher Inesquecível, lançamento da Netflix em 2020

Inútil comparar as duas adaptações, por absolutamente tudo que as separa, que vai de iconicidade à refrescância de seus temas, já repisados por um sem número de filmes noir ao longo da história do cinema. O mais correto é observar o lugar de um cinema tão contido, simbólico e demasiadamente limpo em uma filmografia que preza pela sujeira, estética e emocional. Tudo aqui em Rebecca remete ao controle extremo de atos e ações, um filme de razões cerceadas que eventualmente tenta se desvencilhar de amarras clássicas de condução, mas que tais tentativas de escape só deixam clara sua função castradora da imaginação do diretor.

Problemas com as escolhas narrativas e estéticas também se fazem presente, a começar pela apresentação de seu cenário principal, que nunca alcança o patamar tão comentado no seu ato inicial – “aquilo é Manderlay?”, há de se perguntar o espectador ao avistar a tal “melhor parte do mundo” (conforme descrita por Maxim De Winter), tão acanhada nas imagens que o filme utiliza da mesma, nunca refletindo o porquê desse castelo ser tão ambicionado e valorizado pelos seus personagens. A fotografia de Laurie Rose, geralmente brilhante, não consegue valorizar os espaços e a direção de arte de Sarah Greenwood (inúmeras vezes indicada aos prêmios da Academia, as últimas por A Bela e a Fera e O Destino de uma Nação, no mesmo ano), que deveria se imaginar estonteante, guarda bons elementos de ponto focal, como a ante sala de espelhos do quarto de Rebecca, mas no geral é um trabalho decepcionante.

Rebecca: A Mulher Inesquecível, lançamento da Netflix em 2020

Com um desenrolar desenfreado, que escamoteia informações ora demais, ora de menos, a montagem de Jonathan Amos (de Em Ritmo de Fuga) parece esquizofrênica e não consegue definir um ritmo adequado e regular para a produção, sendo mais um elemento que parece perdido nas intenções da realização, como muitos outros. Ainda que entretenimento se faça presente e o filme tenha uma dose de charme, falta um propósito que ligue esses profissionais ao ato de filmar essa história, tenha ela tido uma versão anterior ou não, no sentido de que cada um não parece ter tido a oportunidade de alcançar suas excelências anteriores – a exceção clara é Kristin Scott Thomas (de O Paciente Inglês), se esbaldando como a esfinge Sra. Denver.

O maior estranhamento, no entanto, fica mesmo a cargo de Wheatley, um cineasta atrelado à liberdade e a autoralidade, que funcionou em filmes underground e tem uma carreira estável longe do grande circuito, de repente se vê atrelado a projetos como esse e a uma possível continuação de Tomb Raider (esse filme não foi um fracasso?), onde ele não possa entregar quase nenhuma característica sua que não fique em um vislumbre do que poderia ter sido. Sim, com carta branca, esse Rebecca poderia ter rendido algo mais ácido, até cafona e com um quê de campy, e bem mais apetitoso que essa salada comportada com umas breves gotas de limão.

Um grande momento
O retorno do barco

Ver “Rebecca: A Mulher Inesquecível” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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