Crítica | Streaming

Ricos de Amor

(Ricos de Amor, BRA, 2020)
Comédia
Direção: Bruno Garotti, Anita Barbosa
Elenco: Danilo Mesquita, Giovanna Lancellotti, Fernanda Paes Leme, Oscar Calixto, Bruna Griphao, Ernani Moraes, Alok
Roteiro: Bruno Garotti, Sylvio Gonçalves
Duração: 104 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Veja em: Netflix

No ano passado, durante uma convenção, a Netflix anunciou um contrato firmado que previa a criação de material nacional diferenciado para competir de igual para igual com o produto cinematográfico que hoje é produzido no país. Após a estreia (de estrondoso sucesso, precisamos lembrar) de Modo Avião em janeiro, protagonizado pela jovem Midas Larissa Manoela, o canal de streaming lança seu segundo produto do acordo, uma comédia romântica que poderia ter sido estrelada também por Larissa, e dirigido pelo Bruno Garotti que se lançou tão bem em Eu Fico Loko, mas que cada vez mais parece reproduzir, sim, dramaturgia de sucesso, porém não cinematográfica.

Visando provavelmente um público acostumado (e fã) da televisiva Malhação, Ricos de Amor não fica nada a dever aos melhores materiais produzidos para as noites globais. Porém se engana quem pensa que o roteiro também escrito por Garotti em parceria com Sylvio Gonçalves poderia ser trama central; enredo com conflitos românticos de tão manjadas soluções e reviravoltas, as desventuras de Teto já nascem com a validade vencida e, no máximo, conseguiriam aparecer como a trama do amigo do protagonista de uma novela das 7. Solar, arejada, simpática, até envolvente, cheia de um carisma que vale nossa torcida, mas jamais uma sinopse como essa centralizaria um folhetim.

Danilo Mesquita em Ricos de Amor (2020)

Depois de conseguir emplacar três sucessos nos cinemas (além da já citada autobiografia do YouTuber Christian Figueiredo, Tudo por um Popstar e Cinderela Pop), Garotti volta a ter uma produção visada no mercado, mas o vigor estético exibido na estreia hoje faz parte do passado. Contudo, mais uma vez com Anita Barbosa como codiretora, o que é visto aqui não apresenta nada que remeta imageticamente ao cinema em qualquer instância. Da textura da imagem à rapidez narrativa, sem espaço para o raciocínio, seu novo filme pode até conseguir sucesso no canal – inclusive há um investimento para tal – porém, suas propriedades, seu apelo, a luz do experiente Felipe Reinheimer, tudo remete à teledramaturgia.

E assim como a típica história do amigo do mocinho de uma produção leve, o roteiro de Ricos de Amor provavelmente não passou por uma quantidade suficiente de revisões. Para falar a verdade, todo o filme parece muito fácil e ligeiro, como se toda a produção tivesse sido escrita, levantada, escalada, rodada, montada e lançada em tempo recorde, tamanha são as facilitações presentes em todos os cantos da produção, desde seus aspectos técnicos até suas soluções narrativas. E é o cúmulo da ironia que um filme que fale sobre diminuição de privilégios facilite tanto a vida de seu protagonista a princípio, para depois deixar claro que todos os personagens são protegidos e não têm qualquer conflito prático para resolver nas suas idas e vindas diárias.

Giovanna Lancellotti e Danilo Mesquita em Ricos de Amor (2020)

Também contribui para o clima de estarmos assistindo a uma narrativa de coadjuvantes alçados a protagonistas o elenco em cena. Não necessariamente tem a ver com talento, mas assistir uma comédia romântica protagonizada por Danilo Mesquita, Giovana Lancelotti e Jafar Bambirra é como assistir a grupo de atores que nunca tem o gancho para o próximo capítulo, porque não tem star power para tal. Todos crias da TV, pois só Giovana tem participações anteriores em cinema e Jafar especialmente é um jovem ainda muito verde. O destaque, no entanto, fica por conta de Lellê, muito despachada e bem resolvida como Monique.

Com universos paralelos que nunca se desenvolvem a contento (a família de Monique, a situação envolvendo o porteiro do prédio, o assédio sofrido por Paula, etc) talvez por já ter toda a pinta de igualmente ser o universo paralelo de algo mais relevante, Ricos de Amor é um passatempo típico para o público da faixa dos 15 a 20 anos, que não exigem uma elaboração qualquer do produto; o filme nem tenta esconder suas arestas. Mas, com uma certa simpatia, um olhar menos atento e o coração que finja não notar os quilos de clichês e cenas chupadas de outros filmes, esse produto para o público teen pode até fazê-lo tirar uma lição sobre vencer pelos próprios méritos e assim mostrar seu valor ao mundo.

Um Grande Momento:
Teto fresco

Links

IMDb

Ver na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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