Crítica | FestivalMostra Sesc

Rua Guaicurus

(Rua Guaicurus, BRA, 2018)
Documentário
Direção: João Borges
Roteiro: João Borges
Duração: 75 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Vários homens circulam por um salão cercado de portas. Dentro da cada uma delas, mulheres colocam seus corpos à disposição em troca de dinheiro. Eles avaliam, negociam, entram e fecham ou seguem para a seguinte, vão embora. João Borges, diretor de Rua Guaicurus, quis ficar na maior zona de prostituição de Minas Gerais muito além da média de permanência masculina.

Assumindo o lugar de observador silencioso, intocável, dotado de olhar privilegiado e acesso livre, ele infiltra no ambiente uma novata (Ariadina Paulino) que faz as vezes de entrevistadora e aprendiz das manhas e da rotina. É dela também o simplório arco dramático do filme, que, todavia, dedica mais atenção à Beth (Elizabeth dos Santos) – a voz da experiência, determinada e autoconfiante – e Shirley (Shirley dos Santos), que representa o extremo oposto da recém-chegada, preparando-se para ir embora.

Investe-se numa falta de clareza entre ficção e documentário que, no fim das contas, não faz diferença, pois estão todos atuando com diferentes graus de experiência. A trama mais profissionalmente construída acaba sendo a mais mecânica de todas; Beth, conforme vai se soltando, destaca-se em termos de performance – tanto pela didática impecável quanto pelo desempenho na cena mais desconfortável e agressiva do longa –; e Shirley é quase um alívio cômico brilhando no telemarketing ativo e nos causos.

Enfeitado com luzes coloridas, é sedutor o convite para descobrir o interior desse cenário tão particular, porém o estranhamento não tarda ao se estabelecer que a abertura significa até a mulher escancarar a janela para usar o vaso sanitário localizado ao lado, uma exposição pela exposição que não reflete naturalidade ou intimidade, aproximando-se mais da invasão de privacidade e do voyeurismo.

Com personalidade de monitoramento, a câmera espreita e as acompanha à distância nos raros momentos fora do confinamento. Sempre isoladas, apesar do entra e sai, da vizinhança, das rodas de conversa montadas, das experiências semelhantes, das violências nada exclusivas, Rua Guaicurus crê enxergar e dar um pouquinho de voz à essas mulheres, mas se comporta como um possível cliente que fica avaliando da porta, reparando os detalhes do pequeno quarto e viajando numas fantasias até que se encontra num espelho. Praticamente não há assunto sem homem.

Um Grande Momento:
A conversa com a trancista.

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[III Mostra Sesc de Cinema]

Taiani Mendes

Crítica de cinema, escritora, poeta de quinta, roteirista e estudante de História da Arte. Também é carioca, tricolor e muito viciada em filmes e algumas séries dos anos 90/00.
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