Crítica | FestivalDestaque

Selva Trágica

Mitos transmutados

(Selva Trágica, MEX, FRA, COL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Yulene Olaizola
  • Roteiro: Yulene Olaizola, Rubén Imaz
  • Elenco: Indira Rubie Andrewin, Gilberto Barraza, Mariano Tun Xool, Eligio Meléndez, Gabino Rodríguez, Shantai Obispo, Cornelius McLaren, Gildon Roland, Dale Carley, Ian Flowers
  • Duração: 96 minutos

A mulher e a natureza. Esta não é uma associação rara e faz parte representações mitológicas e culturais ancestrais. Aquela que gera, a mãe das águas, do conhecimento, do tempo, da luz, da memória. Natura, Gaia, Yebá Bëló, Pachamama, Oduduá… Encontrando a complexidade de um ambiente repleto de vida, criada, mantida, usurpada e desrespeitada, a relação ultrapassa a cosmogonia e se encontra também em lendas, contos e criações das mais diversas, como em Selva Trágica, filme de Yulene Olaizola, que encontra na selva maia do início do século 20 o lugar perfeito para representar o machismo e a devastação do meio ambiente.

Na fronteira entre México e Belize, duas narrativas aparentemente incomunicáveis se encontram: a extração de borracha e a opressão dos colonizadores, e uma noiva que foge de um casamento forçado. Olaizola as enlaça usando a chave do fantástico. Ela toma como base a lenda iucateca de Xtabay, sexista de origem, diga-se de passagem. São muitas as variações do mito, mas a mais conhecida diz que Xtabay, em vida, tinha um coração mesquinho e julgava-se superior por ter mantido-se pura. Depois de sua morte, passou a vagar pela cidade com sua beleza estonteante, seus cabelos negros compridos e vestido branco. Ela atraia os homens bêbados ou infiéis para o meio da floresta e os devorava. Nunca mais eles eram encontrados.

Selva Trágica

A diretora subverte as determinações da lenda. Mantém definições, mas altera motivações, faz com que as interações entre os dois mundos que espera que coabitem em um mesmo tecido lógico sejam claras e possam valer as relações que vai criar a partir de novos entendimentos. As releituras a partir de vivências alteradas pela atualização da sociedade é sempre algo que merece atenção. É importante que se lembre que lendas, contos e mitos têm uma forte conotação de indicação moral, servem como um meio de controle e direcionamento social. Muitas vezes, elementos míticos usados como ameaça reforçam padrões. Xtabay é uma figura que, na oralidade contemporânea, serve para reafirmar os valores tradicionais da família, por exemplo, e reafirmam a figura da femme fatale, a mulher como um perigo constante.

Em sua associação da mulher com a natureza, Selva Trágica foca naquilo que é forçado, não consentido, na falta de cuidado e de limite. Aquela figura — representada por uma noiva e uma selva — tem que sobreviver a um mundo de homens, que não fazem questão de entender necessidades ou se comunicar. Eles tomam aquilo que querem e não veem problema algum nisso. Neste ponto, o roteiro da diretora e Rubén Imaz, encontra um outro lugar para a depositar a mesquinharia e pode falar de colonização, subjugação e a opressão em uma terra que, como tantas outras na América, sofreu dizimação e era disputada por outros países para alguma atividade extrativista.

Selva Trágica

Por outro lado, se parte da identidade vai se transferindo, outra vai se modificando. Do outro lado está a força que resiste: a floresta que se agiganta em seus perigos selvagens ou a mulher que consegue romper com a estrutura social e fugir. Selva Trágica vai criando pequenas quebras na personalidade desta mulher, seja na incomunicabilidade, na curiosidade e até em uma outra relação com o desejo. Agnes, nome que significa “pura”, ao falar de sua virgindade, chega a dizer que tem vontade de experimentar o prazer, algo que a afasta de vez da figura lendária e a aproxima definitivamente do natural. Essa reestruturação e desvinculação da lenda anterior, subverte a própria moral. Sua Xtabay tem um outro motivo.

Logo depois de sua jornada épica acompanhando Diego de Ordaz em Epitáfio, filme que dirigiu com Imaz em 2015, Olaizola se volta mais uma vez para a temática histórica e mantém as características que tornam sua obra única. Com a impressionante fotografia de Sofia Oggioni, aposta mais uma vez em um cinema que observa e, aqui, dá tempo para que a floresta fale por si. Muito da tensão de Selva Trágica é construída nessa espera e na atenção a detalhes e o encontro com o fantástico dá força ao caminho. Porém, há tropeços que complicam um pouco a jornada e que fazem com que passagens pareçam um pouco mais pesarosas do que poderiam ser. Ainda assim, a chegada vale todos os percalços.

Um grande momento
Vem!

[35º Festival de Cine de Mar del Plata]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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