Crítica | FestivalDestaque

Slalom – Até o Limite

O padrão do mal

(Slalom, FRA, BEL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Charlène Favier
  • Roteiro: Charlène Favier, Antoine Lacomblez, Marie Talon
  • Elenco: Noée Abita, Jérémie Renier, Marie Denarnaud, Muriel Combeau, Maïra Schmitt, Axel Auriant
  • Duração: 92 minutos

Conselho tutelar retira meninos de clube do interior de Minas Gerais após jogador de 14 anos ser estuprado por técnico. Centenas de ex-jogadores denunciam o ex-treinador inglês, hoje condenado a mais de 30 anos por abusar sexualmente de crianças de 8 a 15 anos. Técnico de canoagem do Rio Grande do Sul é preso após denúncia de abuso sexual contra sua atlela de 12 anos. Mais de 40 ginastas da Seleção Brasileira denunciam o treinador, que teria abusado delas entre 1999 e 2016. Médico da equipe estadunidense de ginástica é condenado a 175 anos de prisão por, durante duas décadas, ter abusado sexualmente de 200 atletas. Ex-nadadoras do Amazonas denunciam presidente da federação regional que teria abusado e assediado sexualmente delas enquanto eram crianças e adolescentes. Todas estas citações foram amplamente noticiadas, são verdadeiras e, infelizmente, fazem parte do universo esportivo.

Independentemente da nacionalidade e da modalidade esportiva, os treinadores-predadores são uma realidade. E o modo como o assédio e o abuso acontecem costuma seguir um padrão, onde, de um lado, estão a ingenuidade, a admiração e o desejo de vencer e, do outro, o poder. Slalom – Até o Limite, escolhe o esqui na neve para fazer um retrato dessa relação criminosa. Junto a um grupo de jovens selecionados para uma super equipe de treinamento pré-olímpico está Lyz Lopez. Aos 15 anos, seu sonho é brilhar no downhill e subir ao lugar mais alto do pódio. Como qualquer atleta de alto rendimento, e o filme mostra isso, todo o resto da vida deve ficar relegado a segundo plano.

Slalom - Até o Limite
Divulgação / Kino Lorber

Charlene Favière, diretora do filme que também assina o roteiro ao lado de Antoine Lacomblez e Marie Talon, fala da solidão do atleta e do sentimento de isolamento em momentos de treinamento intenso, mas adiciona camadas extras à sua protagonista, trazendo questões próprias da adolescência, como uma necessidade constante de afirmação e de se sentir amada. Há ainda a relação de Lyz com os pais, marcada por ausências, expectativas e silêncios. A atriz Noée Abita é a responsável por trazer todos esses sentimentos, e outros ainda mais complexos, e impressiona pela perturbação e contenção que confere a sua personagem.

Ao lado dela em cena está Jérémie Renier como o treinador Fred. Ele já surge antipático com sua postura arrogante e agressiva, algo que é até comum em filmes de esporte, onde o resultado está associado à cobrança e ao sofrimento. Porém, é impressionante como tanto o ator quanto o roteiro e a direção vão desnudando sua personalidade abjeta. Fred se transforma a depender daquilo que quer, sua postura, abordagem e voz. Ele sabe o que falar e quando falar. Favière vai pontuando essas mudanças com cores, iluminação e enquadramentos. Ela explícita detalhes e sensações e provoca o espectador. 

Slalom - Até o Limite
Divulgação / Kino Lorber

Lyz é uma menina com um sonho, tornar-se a melhor esquiadora da França. Fred surge em sua cabeça ainda coberta pela fantasia como o homem que, além de se interessar por sua vida e lhe dar uma atenção que ela não tem, vai fazê-la conseguir subir ao pódio. Se a visão dela é nublada, a dele, por outro lado, é muito consciente. Ela é mais uma atleta que o admira além da conta, precisa dele e de quem ele vai poder abusar. Esse é o jogo e é preciso muita deturpação moral para enxergar qualquer outra coisa que não seja o abuso sexual aqui. Mas, em uma sociedade patriarcal, onde as vítimas são culpabilizadas, não surpreende que aconteça.

Potente em imagens e discurso, Slalom é duro por trazer a verdade, por pegar uma realidade tão perturbadora e que destrói vidas, deixando marcas que não vão sumir. Quem assiste ao filme acompanha a luz da menina se apagar e se transformar em dependência, confusão e medo, ainda que o resultado chegue. Tudo é angustiante e os respiros vêm com as disputas esportivas ou eventos com várias pessoas — quanto mais pessoas, melhor. Aqui, ao contrário de filmes de competição, a tensão do esporte alivia a pressão do longa, ainda que momentaneamente, pois são esses resultados que determinam a permanência. O peso dos atos nunca deixa de ser sentido, mesmo após os créditos, e a precisão de Favière em sua estreia nos longas de ficção impressiona.

Um grande momento
Não!

[Festival do Rio no Telecine]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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