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Sobreviver à Noite

Horas de desespero - literais

(Survive the night, EUA, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Matt Eskandari
  • Roteiro: Doug Wolfe
  • Elenco: Bruce Willis, Chad Michael Murray, Shea Buckner, Tyler Jon Olson, Lydia Hull, Riley Wolfe Rach, Jessica Abrams, Ravare Elise Rupert
  • Duração: 90 minutos
  • Nota:

Qual a diferença entre Nicolas Cage e Bruce Willis? Hoje, praticamente não há. Astros pop de nascença, Cage ganhou um Oscar (Despedida em Las Vegas), concorreu a outro (Adaptação) e foi amplamente premiado; Willis, nas três vezes que chegou mais perto da festa (Pulp Fiction, O Sexto Sentido e recentemente Moonrise Kingdom), passou longe do reconhecimento pessoal. Os dois lados da moeda de ambos vem sendo engolidos pela realidade de ambos, hoje envoltos em projetos duvidosos em profusão com raros momentos de qualidade, embora esses momentos nunca tenham cessado. Infelizmente não é o caso de Sobreviver à Noite, um estranhíssimo veículo do ator, se é que podemos chamar o filme assim.

Já vimos essa produção muitas vezes antes, especialmente nos dois Horas de Desespero, o original de 1955 de William Wyler e o remake de 1990 de Michael Cimino. Com poucas variações, a ideia é a mesma: a casa de uma tradicional família americana é invadida por um grupo de bandidos violentos que têm motivos escusos para estar naquele espaço. Porém, nenhuma das duas produções encontra eco nessa “nova versão” mal explicada, e muito dessa palidez vem do diretor Matt Eskandari, que acabou de trabalhar com Willis em Centro de Trauma e aqui entrega um produto indefensável.

Sobreviver à Noite

É o primeiro trabalho de Doug Wolf como roteirista, e o que vemos empilhados são clichês de filmes de sequestro que resolvem de maneira desastrada uma após a outras, quando se resolvem. O filme repete os mesmos desdobramentos (a nora e a neta de Willis são amarradas, conseguem se desamarrar e voltam a serem amarradas por pelo menos três vezes), e o filme acaba muito rapidamente soando repetitivo, como se não tivesse nenhum fôlego ou lugar para onde desenvolver suas ideias, que não são boas ou coerentes; para que a ação se estabeleça de maneira a encampar os eventos, muitos absurdos são cometidos. Ou improbabilidades. Ou estupidez. Ou todos juntos.

O filme não consegue mover as relações pessoais estabelecidas, na família de mocinhos ou na “família” de bandidos. Não há tração para que o jogo entre os personagens se estabeleça de maneira crível ou consistente, porque não há espaço para o desenvolvimento de suas narrativas, atropeladas pela força dos eventos. O resultado a isso é que não há empatia suficiente para torcer a favor dos personagens positivos ou contra os negativos, já que todos são marionetes de uma estrutura tão básica quanto desinteressante; quando não há estofo dramático entre as inter-relações acontece esse tipo de fenômeno.

Sobreviver à Noite

Da parte de Eskandari, nenhuma decisão é feita na tentativa de melhorar o material narrativo apresentado; são escolhas estéticas muito pobres, que confundem imageticamente o produto. Porque a dupla de vilões irmãos são tratados com uma ligação tão profunda a ponto de aparentar serem mais um casal homoafetivo do que necessariamente irmãos? Seria interessante que o filme tivesse buscado essa ideia ambígua propositadamente, mas eu só consigo entender tais escolhas como equivocadas, tendo em vista que câmera não é bem posicionada, a iluminação é inapropriada e a montagem é confusa.

Pra completar o pacote, ninguém do elenco está bem, nem Willis – e o filme tenta a todo momento se livrar do peso que é ter Willis em cena, que é esvaziado pela trama. Em seu lugar, Chad Michael Murray (cujo maior mérito foi ter feito A Nova Cinderela com Hillary Duff) assume um posto de herói muito improvável e capitaneia um grupo de atores dos mais fracos reunidos recentemente, o que inclui um trio de atrizes ainda mais deficiente que o masculino, que nada tem de bom. Sobreviver à Noite, portanto, talvez seja daqueles casos onde o mais simples precisa ser dito, que é a falta de talento coletiva encontrada no projeto.

Um grande momento
A perseguição

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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