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Socorro! Virei uma Garota

(Socorro! Virei uma Garota!, BRA, 2019)
Comédia
Direção: Leandro Neri
Elenco: Thati Lopes, Victor Lamoglia, Manu Gavassi, Nelson Freitas, Kayky Brito, Lipy Adler, Bruna Altieri, Leo Bahia, Lua Blanco, Giovana Cordeiro, Vanessa Gerbelli, Bruno Gissoni Camila Mayrink, Raul Gazolla
Roteiro: Paulo Cursino
Duração: 110 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

É curioso o fascínio que existe no cinema por histórias sobre troca de corpos. O modo óbvio e explícito de representar a construção da empatia já apareceu de várias formas: entre pais e filhos, maridos e esposas, solteiros e casados, pobres e ricos, mas há uma certa recorrência em trocas que envolvem o gênero sexual. Socorro! Virei uma Garota! é mais um desta última categoria.

O filme conta a história de Júlio, um nerd excluído em casa e na escola que gostaria de ser descolado. Depois de fazer um pedido a uma estrela cadente, ele acorda no corpo de uma patricinha adolescente. Thati Lopes, que ficou conhecida pelo canal de esquetes Porta dos Fundos, encabeça o elenco e o tom do filme é o mesmo da maioria dos outros que trazem o mesmo dispositivo: a comédia.

Tentando levar a sério um dos jeitos preferidos de fazer rir, são duas as principais linhas de troca de corpos: as que acontecem em um mesmo universo, que geralmente existe para resolver diferenças entre duas pessoas; e aqueles, como Socorro! Virei uma Garota!, em que um novo universo, com uma nova linha do tempo, é estabelecido para que alguma mensagem seja aprendida por aquele que passou pela transformação.

De igual potencial criativo, o de um novo universo abre mais caminhos para a comparação entre o que é a vida de um e de outro. Quando Júlio vira Júlia, não só ele, mas tudo que se liga à sua existência se transforma: sua casa, seu pai e seu irmão. O viver uma nova realidade não parte do ponto da mudança, mas traz toda uma nova realidade.

Porém, é como se essa realidade fosse independente, um universo realmente paralelo. No mundo diferente de Júlia, ela é a filhinha mimada do papai, a garota mais popular da escola e uma patricinha que gasta dinheiro sem pensar, não liga para os estudos, namora os caras mais velhos e faz questão de ser o centro das atenções. Quando Júlio vai para esse mundo, leva para ele características de sua outra vida: a nerdice, a dificuldade de lidar com as garotas e a facilidade com os estudos. Não deixa de ser uma construção interessante.

O filme se aproveita disso, mas está mais preocupado com os velhos clichês do subgênero, ou seja, com todas as diferenças que vêm com a troca de corpos. Sem deixar de lado todo machismo já visto em outros exemplares, o homem no corpo de uma mulher não tem mais tantas coisas originais a oferecer. Lá estão a descoberta corporal com as mesmas ações (com direito à cólica menstrual, desequilíbrio no salto alto e tentativa de usar o mictório), o assédio do amigo que sabe o que está acontecendo e a possibilidade de se aproveitar de outras mulheres, incluindo aqui a paixão nos dois mundo, vivida por Manu Gavassi.

Nesse ambiente repetido, desgastado e machista, Socorro! Virei uma Garota! se diferencia pela facilidade de Thati Lopes com o humor e por algumas boas tiradas. Enquanto a atriz se diverte e diverte com piadas bobas e passagens inspiradas, há momentos curiosos no roteiro que vão do humor, como a história de Jorge; ao drama, a da mãe.

Há um outro problema, junto com Thati estão Gavassi, Victor Lamoglia e Kayky Brito. O que causa um estranhamento incômodo pela inadequação etária do elenco, obviamente velho demais para fazer os papéis. Deve ser algo comum em produções adolescentes achar que pessoas da idade retratada não conseguem executar os papéis.

Porém, apesar dos pesares, Socorro! Virei uma Garota! consegue chegar aonde queria. Não é nada original e nem que vai ficar na cabeça por muito tempo, mas até que garante algumas risadas.

Um Grande Momento:
Spray de pimenta.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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