Crítica | Festival

Sol

Amor e desamor

(Sol-, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Lô Politi
  • Roteiro: Lô Politi
  • Elenco: Rômulo Braga, Everaldo Pontes, Malu Landim, Luciana Souza
  • Duração: 100 minutos

Pai, pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz

Lô Politi (diretora de Jonas e Alvorada) escolhe a paternidade como tema desse novo filme de ficção. Um filho que tenta não errar como erraram com ele. Há um ano sem ver a filha, Téo (Rômulo Braga) quer recuperar o tempo perdido o mais rápido que der, mas o que ele não imaginava é que o fantasma do velho pai, Teodoro (o veterano Everaldo Pontes), voltaria para lhe assombrar. Esse é o enredo de Sol, que conta com a presença solar da pequena Malu Landim, que faz sua estreia nos cinemas no papel de Duda — ou Rafa, como gostaria de ser chamada.

Na dinâmica que vai se estabelecendo entre filha, pai e avô é que o filme se sustenta, no excesso das falas de um, do silêncio do outro e da singeleza do afeto que vai se constituindo entre a neta e seu Teodoro. Mas que pena que esses momentos de cumplicidade e que o tergiversar para fora do perímetro do personagem de Teo são raros na tessitura dramática de Sol. Inclusive o título do filme não tem lá seu acertado sentido, se forçoso no máximo por ser um “road movie solar no sertão baiano” do que arremeter a lembrança do apelido da esposa falecida de Teodoro, Solange.

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Rômulo Braga constrói com talento seu personagem, um pai claudicante e filho traumatizado pelo abandono. A cena em que usa o recurso do Google Earth, da imagem satélite no GPS, para reavivar a memória do lugar que conheceu criança, enquanto a mão que segurava o celular se mantinha trêmula, é comovente e interessante demais. E por falar em construções, Téo é arquiteto e faz desenhos, algo que também habita a mente e a morada de seu Teodoro, que inclusive esculpe uma versão de sua amada Sol como adorno de barco.

Sol, de Lô Politi
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Foto: Divulgação

“De homem pra homem, supera”

Como não seria diferente, essa escultura fará companhia ao skate da Duda e integrará a aventura na estrada até Salvador. Seguindo uma progressão linear, com a passagem dos dias entre a descoberta da enfermidade de Teodoro, a ida de Teo e Duda até ele e a viagem dos três, em meios as crises de tosse de Duda o filme agrega tensões envolvendo a saúde da menina, além das tentativas de afogamento de Teodoro.

O que tem de solar a fotografia de Breno César — que lembra mas não chega ao detalhamento da de a Breve Miragem de Sol, que vai por um recurso estilístico parecido – não resplandece no interior (turbulento ainda que belo, de Téo) as memórias de uma infância com lacunas.

Sol, de Lô Politi
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Foto: Divulgação

“As vezes você acha que vai passar mais não passa….
A vergonha, a culpa”

Bagagens emocionais são o vórtice de Sol, que a partir da expiação da culpa da parte idade de Teodoro, pacífica os erros de Teo em relação a Duda, oportunizando mais uma chance para o pai ser mais presente na vida da menina e parar de arrasta-lá na direção dos seus problemas familiares.

Mas entre o velho, o mar e o rio (no caso outro velho, o Chico), a menina quer dirimir o avô, ser o elo entre eles, convencê-lo que a vida ainda é boa. O que ela não sabe ainda é que onde a ferida já putrefou não tem remédio que amenize.

E mesmo que a tragédia familiar e social seja esperada, mesmo que o desfecho da trama seja óbvio, ainda assim dá para se relacionar com Sol e sua proposta honesta.

Um grande momento
Memória da camisa branca

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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