Crítica | Outras metragens

Subsolo

(Subsolo, BRA, 2020)

  • Gênero: Animação
  • Direção: Erica Maradona, Otto Guerra
  • Roteiro: Erica Maradona, Vinícius Perez
  • Duração: 8 minutos
  • Nota:

Ao som de “Estrelar”, de Marcos Valle (“Tem que correr, tem que suar, tem que malhar, vamos lá”), entramos no universo animado de Erica Maradona e Otto Guerra. Subsolo é uma representação do capitalismo em sua forma de saúde, vamos dizer assim. A academia, onde pessoas se esforçam para ter uma forma que se adeque à socialmente determinada como correta, marca seu papel no ciclo infinito e para lá de conhecido de demanda estimulada. Você produz algo que faz que impulsione a procura pelo seu negócio.

Com uma animação em 2D caprichada nas cores, o curta fala de coisas diversas que permeiam aquele ambiente, como o culto ao corpo, não identificação, idades e mídias sociais. O magrelo que vai pedir dicas ao marombeiro, o macho asqueroso que dá em cima da aluna, a professora de zumba carrasca, e, numa graça pontual, o sotaque paulista carregado, ou seja, os diretores apresenta uma chuva de clichês que estamos acostumados a ver diariamente. Tudo como parte da identificação que é tão importante ao filme.

Enquanto transitam pelo local e entre as pessoas, os diretores apresentam gradualmente o subsolo que nomeia o filme e que confirma a chave do filme. O roteiro que trabalhava com o humor pontual, o abraça de vez em sua recriação do padrão industrial. E faz rir, justamente por ter trabalhado naquela realidade a ponto de fazer com que ela seja reconhecida pelos que assistem ao filme, em detalhes, como o plano semestral, ou na balança que mostra os quilos a mais.

Subsolo

Por trás do riso está a mensagem não tão divertida assim: a incorporação daquele discurso neoliberal que entregou ao cidadão a necessidade de cuidar do corpo para que o gasto com a saúde pública fosse cada vez menor. Vêm daí, também, os planos de saúde e qualquer outra atividade “terceirizada” para diminuir a responsabilidade do Estado. E, como no capitalismo uma atividade promove a outra, estabelece-se o padrão, criam-se alimentações próprias e impróprias e, claro, excluem-se os diversos.

Falar assim sobre o assunto não é nada atraente. Mas se tem uma coisa que o humor sabe é como fazer com que assuntos sérios sejam encarados de maneira leve, mas ainda assim contundente. Subsolo tem oito minutos apenas, mas eles são suficientes para, com graça, escancarar um sistema que se retroalimenta. 

A busca de uma estética perfeita e a impossibilidade de alcançá-la, justamente pelo próprio sistema, não são tão literais, mas estão aí para quem quiser ver. Por isso os filtros nos aplicativos criam fantasias físicas inatingíveis, os planos de mensalidade longínquos fazem tanto sentido e o verão é vendido como a hora de mostrar o corpo (olha lá a música do Valle de novo: “verão chegando”). Não deixa de ser uma máquina de vender fantasia, uma fantasia que aprisiona.

Um grande momento
Uma batata doce gigante rolando atrás de mim.

[48º Festival de Gramado]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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