Crítica | Festival

Todos os Mortos

(Todos os Mortos, BRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Marco Dutra, Caetano Gotardo
  • Roteiro: Marco Dutra, Caetano Gotardo
  • Elenco: Mawusi Tulani, Clarissa Kiste, Carolina Bianchi, Thaia Perez, Agyei Augusto, Leonor Silveira, Alaíde Costa, Rogério Brito, Thomas Aquino, Andrea Marquee, Luciano Chirolli, Teca Pereira, Gilda Nomacce
  • Duração: 120 minutos
  • Nota:

O cinema de Caetano Gotardo e Marco Dutra, respectivamente os diretores dos excelentes Seus Ossos e Seus Olhos e Quando eu era Vivo, não precisa nem merece ser comparado a nenhum outro, porém Todos os Mortos será posto em paralelo a outros, injustamente. É um filme que sopra liberdade estética e confirma a excelência imagética que ambos já operaram em suas obras anteriores. Aqui, seu olhar avança por um período outro que não o atual, mas ambos não se traem, pois o longa exala pontos característicos de ambos, e imbuído delas, oferece um olhar rejuvenescido para questões de classe arraigadas há mais de 100 anos, mas que reverberam no hoje. Parece óbvio?

Ao traçar esse paralelo entre épocas, com o pé fincado no passado e a cabeça ressoando através dos tempos, a dimensão que os diretores imprimem a sua narrativa busca reverberar relações interpessoais e interraciais do passado ao presente, com isso exemplificando e observando o avanço tecnológico em detrimento ao atraso sócio-psicológico – se há uma estrada sendo construída e o filme ecoe esses sons e essas imagens, outros sons e imagens também ressoam o arcaico, e não necessariamente apenas o canto dos ex-escravos, mas principalmente os pensamentos e atitudes racistas que infelizmente não caíram em desuso, e que destruíram e ainda persistem em destruir.

Todos os Mortos

O som em particular na produção ocupa um espaço de elo entre épocas, e sua utilização sublinha com sutileza as intenções de Todos os Mortos. Tanto o trabalho artesanal dessa captação é de fruição natural, quanto principalmente o que evoca o presente, como os helicópteros, ou os instrumentos de trabalho de uma obra ao longe, ou manifestações atuais; esses vazamentos funcionam também para mergulhar sua diegese no mundano. O filme também se explora visualmente do hoje, com cenários aqui e ali contemporâneos, para se embrenhar em discussão atualizada sobre suas amplificações sociais e raciais, enquanto monta um mosaico de sutilezas que rememora ao imagético dos seus dois autores.

Mas é ao gesto que Caetano e Marco se interessam mais. É a mão da jovem branca agarrando a criança negra até marcá-la, é o leve toque entre os amantes que vaza entre grades, é o olhar da anciã ao perceber o fim da própria vida, é o beijo que irrompe entre personagens e libera a verdade… são todos esses e muitos outros flagrantes momentos de breve intimidade que denunciam a fricção entre esses personagens e denunciam as diferenças que persistem entre eles, nos 121 anos que nos separa dessa sociedade mas que não diminuem as crenças de lados opostos e conflitantes.

Todos os Mortos

Esse eco que valida os dois tempos sem diferenciá-los é o que faz de Todos os Mortos uma experiência ao mesmo tempo tão enriquecedora e tão ambivalente aos sentidos. Um estranhamento natural diante de rasgos de nossa atual realidade em meio a um roteiro que se situa primordialmente em 1899, Caetano e Marco embaralha também os sentidos dos personagens entre si, que continuamente estranham seus comportamentos e se veem prostrados diante de uma verdade que não lhes é sabida; a verdade é particular e não é dividida em seu entorno. E a personagem Ana parece ter acesso a uma verdade ainda mais recôndita, ao acessar intermundos e conectar ela mesma o passado e o presente na própria narrativa – a escravidão é um triste passado, que ambiguamente também é desejada de volta.

Essa mesma personagem abriga todas as contradições do longa. Ela é o desejo pela renovação com seu comportamento dissociado do são, ao mesmo tempo que não deixa escapar o prazer mórbido por um passado de violência ao avistar seus fantasmas, e promover novos. Ana é a classe dominante atual, com sua voz pretensamente inclusiva a reproduzir o mesmo derramamento de sangue de dois séculos atrás. Caetano e Marco repovoam seu cinema de sensibilidade gestual a um movimento ancestral de reprodução de vozes do horror, que ainda estão encravadas na veia da sociedade disfarçada de sinceridade, mas sempre cruel e letal.

Um grande momento
O reencontro dos amantes regado a desejo.

[48º Festival de Gramado]

Todos os Mortos

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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