Crítica | Cinema

Tarsilinha

Jornada da heroína

(Tarsilinha, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Celia Catunda, Kiko Mistrorigo
  • Roteiro: Marcus Aurelius Pimenta, Fernando Salem
  • Duração: 93 minutos

Dos mesmos criadores de Peixonata e O Mundo de Luna, Celia Catunda e Kiko Mistrorigo, Tarsilinha chega aos cinemas buscando traduzir para o audiovisual um pouco do universo pictórico de Tarsila do Amaral e ampliar o público do estúdio Pinguim Content – geralmente orbitando entre a primeira infância e o princípio da adolescência.

Em 2020, o universo da pintora, desenhista e tradutora foi traduzido em uma exposição visando o público infantojuvenil, com curadoria da sobrinha-neta Tarsilinha do Amaral. Seja pelas cores, formas e temas que se utiliza, a obra de Tarsila tem uma aproximação natural com esse público, agora representado pela personagem Tarsilinha, uma menina curiosa, generosa e que embarca em aventuras fantásticas. Ela mora com a mãe e o pai na roça, em uma localidade propositalmente similar à Capivari natal da abastada Tarsila. A roça, os bichos, compõem a paisagem rural de Tarsilinha, que também se utiliza de pinturas referenciais como A FEIRA, EFCB (Estrada De Ferro Central Do Brasil) e SÃO PAULO (GAZO) para criar a paisagem urbana que faz contraponto na progressão da história, quando Tarsila tem que se afastar de casa para tentar buscar um antídoto para o “desmemoriamento” da mãe.

Tarsilinha
Divulgação

A forma com que os cineastas, tendo como base o roteiro de Fernando Salem e Marcus Aurelius Pimenta, carregam na linguagem visual para representar toda a ambiência presente nas obras de Tarsila também é refundada nas temáticas que Tarsilinha traz, que aprofundam um pouco não só a jornada da protagonista/pequena heroína como tocam em questões universais como a solidão, o senso de pertencimento e a preservação da própria história. Inclusive o ABAPORU, a obra mais reconhecida de Tarsila, em exposição na Pinacoteca de SP, está presente no clímax do filme, como a morada da antagonista da história, a lagarta que rouba memórias.

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Claro que pelo caminho, Tarsila faz amigos que a auxiliam e provocam mudanças nela, como o Saci e uma especie de macaco sagui. É uma aventura familiar, que encontra narrativamente ecos em grandes clássicos como Labirinto: A Magia do Tempo e História Sem Fim ao mesmo tempo em que se distancia dessas referências estrangeiras por firmar os códigos populares, de uma arte extremamente brasileira e antropofágica, representada inclusive em personagens do nosso folclore como a Cuca, sob a ótica apurada e extremamente única de Tarsila do Amaral.

Tarsilinha
Divulgação

A animação traz ainda um outro atrativo que engloba o público adulto para além do universo cheio de brasilidades da pintora modernista, a trilha sonora assinada por Zeca Baleiro e Zezinho Mutarelli, que logo deve estar disponível em plataformas digitais.

Um grande momento
A descoberta do mundo além da página em branco

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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