Cinema em linhas

The Netflix Effect e a problemática do streaming

A Netflix decidiu transformar seus números em espetáculo com o site The Netflix Effect, que surge como uma bonita e bem elaborada peça de convencimento político em escala global, com dados cuidadosamente organizados para mostrar como a plataforma gera empregos, movimenta economias locais, impulsiona turismo e financia produções nacionais. Tudo isso é real. E justamente por isso o debate se torna mais complexo.

Segundo os dados divulgados pela própria empresa, foram mais de US$ 135 bilhões investidos em filmes e séries na última década, com impacto econômico estimado em US$ 325 bilhões e mais de 425 mil empregos ligados às produções realizadas em dezenas de países. Há ainda o discurso da descentralização cultural. Obras em idiomas não ingleses passaram a ocupar espaço central no catálogo e no consumo global. Exemplos como Round 6, La Casa de Papel, Lupin, Senna e Cidade Invisível ajudam a consolidar a ideia de uma plataforma que teria democratizado a circulação audiovisual mundial.

A questão é que esse discurso econômico frequentemente ocupa tanto espaço que acaba soterrando outras discussões igualmente importantes. Porque o mesmo modelo que expandiu mercados também precarizou relações de trabalho, enfraqueceu direitos residuais e concentrou poder em um número muito pequeno de empresas.

Nos Estados Unidos, as greves de roteiristas e atores de 2023 escancararam parte dessa crise. Um dos principais pontos do conflito estava justamente na lógica do streaming. Durante décadas, profissionais recebiam pagamentos residuais proporcionais à reexibição de séries e filmes na televisão aberta, no cabo e em home video. O streaming desmontou esse modelo e as plataformas passaram a pagar valores fixos, muitas vezes desvinculados da audiência real das obras, enquanto mantinham os dados de consumo sob absoluto sigilo.

A situação cria uma distorção: séries assistidas por centenas de milhões de pessoas podem render cifras gigantescas às plataformas sem necessariamente garantir participação proporcional para seus criadores. O sucesso deixou, assim, de circular economicamente dentro da cadeia criativa e passou a se concentrar nos proprietários da infraestrutura, além do algoritmo virar também uma ferramenta de opacidade.

As tentativas de transformar o modelo podem ser encontradas em todo o mundo. Na Europa, sindicatos e entidades do audiovisual pressionam por mecanismos de remuneração proporcional ao desempenho das obras. Na Coreia do Sul, criadores envolvidos em fenômenos globais da Netflix relataram contratos sem participação posterior nos lucros internacionais. O caso de Round 6 acabou se tornando simbólico porque a série movimentou bilhões em valor de mercado para a empresa enquanto o criador, Hwang Dong-hyuk, afirmou ter recebido um pagamento relativamente modesto pelo projeto inicial.

Existe ainda outra camada menos discutida quando se fala no “efeito Netflix”: a transformação do próprio modelo de produção audiovisual. A lógica das plataformas impôs um ritmo industrial extremamente acelerado, baseado em análise de dados, retenção de audiência e circulação contínua de conteúdo. Séries são frequentemente canceladas em poucas semanas, filmes desaparecem do catálogo e obras passam a existir dentro de um ambiente em que preservação cultural depende da estratégia comercial de empresas privadas.

No Brasil, o debate ganha contornos ainda mais delicados porque convivemos simultaneamente com dois fenômenos: o streaming ampliou oportunidades de produção nacional e internacionalizou parte do audiovisual brasileiro, mas, ao mesmo tempo, consolidou uma relação profundamente desigual entre plataformas globais e mercados locais.

Ainda que a realidade seja mais complexa, a regulamentação no país costuma ser apresentada como um embate simplista entre liberdade de mercado e proteção cultural. As discussões sobre Condecine, cotas de catálogo e investimento obrigatório em produção independente tentam responder justamente a essa concentração crescente de poder econômico e simbólico nas plataformas. Só que existe um risco permanente de reduzir tudo a uma discussão tributária enquanto questões estruturais continuam praticamente invisíveis.

Pouco se fala, por exemplo, sobre transparência de audiência. As plataformas decidem unilateralmente quais números divulgar, quais metodologias utilizar e quais sucessos transformar em vitrine pública. Desse modo, tanto para criadores, produtores independentes ou órgãos reguladores, torna-se difícil medir impacto real, negociar contratos mais justos ou estabelecer parâmetros equilibrados de remuneração.

Outra discussão urgente é sobre propriedade intelectual. O modelo contemporâneo do streaming frequentemente concentra direitos de exploração de forma extremamente agressiva. Em muitos contratos, produtores e criadores cedem controle amplo sobre circulação, continuidade e exploração futura das obras em troca do financiamento. O resultado é um cenário em que parte significativa da memória audiovisual contemporânea passa a pertencer quase integralmente às plataformas.

O “The Netflix Effect” tenta vender a ideia de uma empresa integrada às economias locais, geradora de empregos e promotora de diversidade cultural. E há verdade nisso. Mas talvez o dado mais importante esteja justamente fora do site. Nunca houve tanta circulação global de conteúdo audiovisual e poucas vezes o controle dessa circulação esteve tão concentrado.

Essa é a contradição central do streaming contemporâneo. As plataformas financiaram expansão criativa em escala inédita, mas também remodelaram o audiovisual segundo uma lógica cada vez mais centralizada, opaca e financeirizada. O problema da regulamentação brasileira talvez nunca tenha sido decidir se a Netflix, ou qualquer outra plataforma de streaming, faz bem ou mal para o país. A pergunta mais importante é outra: quem controla as imagens que organizam a cultura contemporânea, quem lucra de fato com elas e quais direitos permanecem nas mãos de quem cria.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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