estante

Tigertail

(Tigertail, EUA, 2020)
Drama
Direção: Alan Yang
Elenco: Christine Ko, Fiona Fu, Joan Chen, James Saito, Margot Bingham, Tzi Ma, Hayden Szeto, Bill Dawes
Roteiro: Alan Yang
Duração: 91 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Filmes sobre a cultura oriental em choque com o que se imagina do Ocidente, um banho de realidade a respeito do que nos entendemos como indivíduos e de como as novas gerações tendem a repetir os erros das anteriores não são necessariamente uma novidade. Atualmente inclusive esse tema está em especialmente em voga, após o sucesso de produções como The Farewell e Minari, respectivamente nos festivais de Sundance de 2019 e 2020. Infelizmente Tigertail é só mais uma dessas produções onde os conflitos culturais refletem uma apatia emocional que invadem seus protagonistas, que buscam respostas a anseios que eles nem sabem nominar muito bem.

O cineasta Alan Yang tem experiência na TV (como nas premiadas Parks and Recreations e The Good Place) mas com longa-metragem se trata de uma estreia. Sem criar situações necessariamente novas, Yang requenta as habituais com certa delicadeza, o que nem sempre se configura como um acerto, mas eventualmente em meio ao tecido já previamente testado, surge uma estampa de colorido diferente em meio ao esperado. O filme abre com uma bela sequência juvenil que nos coloca frente ao protagonista pela primeira vez, um homem que hoje se encontra na mesma encruzilhada que a filha. Esse reflexo parental é interessante, embora o filme utilize o recurso com muita ênfase, repetidas vezes. Ainda assim, é um recurso acertado que permite uma conversa imagética de sentimentos represados.

Seria essa solução um acerto maior se o filme escolhesse um lado para enfatizar sem afogar o outro, exatamente o que acontece. Ainda que o protagonista do filme seja o pai em crise, sobra muito pouco em cena para sua filha, o que acaba por afastar o público de qualquer interesse empático pela personagem e por qualquer outra história que não a dele. Então é como se fosse criado o espelho para compartilhar ações, que perdem a validade quando um dos lados simplesmente não gera interesse, pela ausência de elementos no roteiro que a preencham. A intenção existe e é executada, só carece de importância.

O filme conta no entanto com um aspecto visual de nuances muito bem aproveitadas. Se o roteiro também de Yang não revela o caráter especial de sua narrativa, o trabalho de direção de Tigertail é acima da média, com o fotógrafo Nigel Bluck criando uma tradicional textura granulada para o passado do filme, que enche assim as camadas ausentes no roteiro com um apuro técnico e um senso de antiguidade às imagens sobre a juventude do protagonista, até debruçar-se na chegada à América e o filme se vestir de uma atmosfera setentista totalmente coerente com as propostas visuais do filme. No presente, o naturalismo estéril só aumenta a discrepância entre o “que se sonhou ser” e o “que amargamente se tornou”.

À parte o personagem principal, o filme não consegue rechear de bagagem emocional os seus universos paralelos de seres humanos. O retrato da filha, que clama por contar sua história e raramente é ouvida pela produção, é o mais óbvio das necessidades narrativas não confeccionadas pelo roteiro, mas esse vazio cerca inúmeros personagens, apenas gravitando entre o protagonista. Se isso enriquece essa reflexão em particular, a longo prazo esvazia o filme de torcida, que mira exclusiva para Tzi Ma. O veterano ator empresta seu perfil de esfinge a um homem que viveu uma grande decepção causada por si próprio e encerrou seus sonhos na aceitação de uma vida incompleta. Graças a sutileza que ele deixa vazar pelo olhar repleto de significados, o longa de Yang acaba por resplandecer.

Talvez o cinema nos tenha acostumado com as sagas que eclodem no social e no humano de Jia Zhang-Ke, mas ver um filme que abre mão de substância interna a ponto disso ficar claro em tela não deixa de carregar uma certa frustração, ao fim e ao cabo. Com mais do que exigiu ao seu ator central espalhado em profundidade e/ou emoção pelo resto do projeto, e Tigertail teria saído do lugar da simpatia carinhosa para um lugar verdadeiramente especial em matéria de Cinema.

Um Grande Momento:
O arco dramático que une a abertura ao encerramento.

Links

IMDb

Assistir na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo
Fechar