Crítica | Streaming

Uma Noite Infernal

(Burn, EUA, 2019)
Suspense
Direção: Mike Gan
Elenco: Tilda Cobham-Hervey, Josh Hutcherson, Suki Waterhouse, Harry Shum Jr., Shiloh Fernandez, Keith Leonard, Angel Valle Jr., John D. Hickman
Roteiro: Mike Gan
Duração: 88 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Mike Gan é um cineasta inexperiente, com uma filmografia em construção. Depois de roteirizar e dirigir alguns curtas, ser o responsável por diversas áreas em outros e assinar o roteiro de alguns episódios de série, chega agora ao seu primeiro longa-metragem, Uma Noite Infernal, lançado pelo canal a cabo TNT, em selo próprio.

O filme escolhe um posto de gasolina para se desenvolver, e parte de um lugar comum: o assaltante que precisa de dinheiro e reféns, mas se diferencia pelos personagens. Se temos Billy, vivido por Josh Hutcherson (Jogos Vorazes), como o ladrão pretensioso e Sheila, papel de Suki Waterhouse (Amores Canibais), como a caixa arrogante dentro dos personagens esperado, há um outro elemento que dá à história sua originalidade.

Este elemento é Melinda, outra funcionária do local. Entre a carência e o transtorno, ela é uma mulher que parece sempre buscar alguma resposta de gentileza e atenção, mas é sempre tratada com desdém. Suas doces tentativas de qualquer tipo de aproximação são repelidas. Porém, se por um lado Gan dá ao público uma personagem que desperta piedade e, consequentemente, aproximação, por outro o confunde com as atitudes intempestivas da moça, sua insistência exagerada e seu comportamento stalker. Algo está errado e a complexidade da personagem, encarnada por Tilda Cobham-Hervey (One Eyed Girl), é o ponto mais interessante do filme.

O diretor aposta na simplificação da construção, restringindo tudo a um único espaço e está despreocupado com a explicitação de passados. Aquilo que se tem é o que acontece na noite em que ocorre o assalto, cabendo a quem assiste ao filme a possibilidade de complementar a história.

Mas ainda há muito da crueza dos novos realizadores. Mesmo que seja um filme redondo e bem acabado dentro de suas pretensões, mesmo que tenha algum pulso, ainda que irregular, com os atores – algo fundamental em filmes de ambientes restritos -, a descrença no que seu filme pode oferecer persiste. Isso faz com que repetições desnecessárias e precipitações na mudança de rumo do roteiro aconteçam. Toda a construção elaborada de Melinda se perde por vários momentos, criando uma personagem irreal e pouco condizente com o que se vira até ali. Poderia associar a isso um possível transtorno psicológico, mas há um exagero sem explicação.

Gans inclui passagens pouco ou nada interessantes, como as tentativas de estupro, algo que a criação não necessitava e que não provam nenhum ponto que outra ações fariam. Mais uma vez é a descrença no material, e uma quebra significativa na trama. O mesmo se pode dizer da aleatoriedade de passagens como a chegada do namorado, não problemática em si, mas em como se dá, a visita inesperada dos motociclistas, ou o final atrapalhado.

Mas, entre o esmaecimento do filme e alguns claros equívocos, por se tratar de um primeiro longa, ficam a noção de construção de tensão e a tentativa de elaboradas interações e personagens interessantes. Além de alguns acertos na construção de planos, com o diretor de fotografia Jon Keng (Before You Know It), e alguma noção do uso de trilha sonora.

Uma Noite Infernal não vai mudar a vida de ninguém, mas é um primeiro trabalho que está dentro das possibilidades de seu diretor e que consegue trazer ao público algum estranhamento – no melhor sentido da palavra – e criar alguma tensão.

Um Grande Momento:
Café quente.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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